Analítico com ordens clássicas

Fazer arquitetura · Atividade III

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Projetar é compor, mas para compor é preciso ter objetos a serem compostos: para os arquitetos, estes são os “elementos da arquitetura”.

Ementa

O estudo analítico tem sido a porta de entrada no estudo do classicismo desde a organização do ensino na Academia de Arquitetura em Paris, no século XVIII, difundindo-se para o sistema as Escolas de Belas-Artes em dezenas de países, inclusive no Brasil, nos séculos XIX e XX. Na Escola de Belas-Artes de Paris, no final do século XIX, o analítico era uma das provas de seleção para o ingresso no curso de Arquitetura. Na do Rio de Janeiro, no começo do século XX, era um dos primeiros exercícios desenvolvidos pelos alunos ingressantes. Os principais mestres da geração modernista dos anos 1920 — Le Corbusier, Walter Gropius, Lucio Costa e muitos outros — estudaram sob alguma influência do método Belas-Artes. Embora eles tenham instituído teorias e sistemas de ensino opostos ao método Belas-Artes, a obra desses arquitetos demonstra a disciplina, o rigor gráfico e a atenção para proporções e detalhes, derivadas dos seus estudos classicistas.

As “cinco ordens” da arquitetura clássica foram codificadas como um cânone relativamente tarde, nos tratados de autores italianos como Serlio, Vinhola (Vignola) e Palladio, em torno da metade do século XVI. No entanto, elas não são uma “invenção” arbitrária de algumas pessoas, mas o resultado da consolidação milenar de práticas construtivas, costumes projetuais e refinamentos estéticos.

As ordens clássicas são elementos de um certo modo tradicional de construir, mas elas não são como os modernos componentes construtivos industrializados. Cada projeto clássico introduz ligeiras variações, por vezes quase imperceptíveis, nos detalhes e nas proporções das ordens, enfatizando assim que a sua execução é um trabalho artesanal altamente qualificado. As ordens também são elementos de decoração, mas não são simples “enfeites” colados no final. O projeto clássico incorpora as ordens desde o início como elementos reguladores do traçado, das proporções e da expressão construtiva da edificação. Mesmo quando as colunas ou pilastras estão embutidas numa parede portante, elas podem contribuir literalmente com o contraventamento da estrutura, ou simbolicamente como representação de uma certa lógica construtiva tradicional e como expressão do decoro, ou dignidade do projeto.

Por tudo isso, na sequência dos nossos estudos de construção tradicional, vamos buscar a disciplina e o rigor formal da arquitetura erudita, propondo:

Realizar um estudo analítico de uma edícula com um único ambiente interno, compreendendo uma ordem clássica. A edícula será implantada num espaço aberto, e deve ornar e dignificar o espaço público mediante o uso correto e elegante dos elementos da arquitetura clássica. A composição da prancha deve ressaltar as proporções e os detalhes da arquitetura clássica.

Objetivos

Dominar as cinco ordens clássicas da arquitetura e ser capaz de as empregar em composições simples, reconhecendo seus aspectos estéticos assim como sua lógica de representação construtiva (disposição, proporções, modenatura).

Produto

Uma edícula de construção e composição eruditas, com um único volume interno, implantada num ambiente público à sua escolha.

A edícula será implantada num espaço público aberto, e poderá servir como portal, guarita, sala de estar, ou qualquer outra forma de abrigo ou passagem; a sua composição deve ser suficientemente genérica para permitir uma variedade de usos. A edícula deve ornar e dignificar o espaço público mediante o uso correto e elegante dos elementos da arquitetura clássica.

  • A edícula deve ser articulada com uma ordem toscana, dórica, jônica, coríntia ou compósita completa (colunas, ou pilastras, e seu entablamento) extraída do tratado de Chitham, do de Vignola, ou do de Perrault;
  • A edícula deve ter todas as elevações idênticas;
  • Na planta do ambiente único da edícula deve ser possível inscrever um círculo com 2,5 metros de diâmetro, o qual deve tocar a estrutura da edícula em quatro pontos equidistantes;
  • A estrutura das paredes deve ser em cantaria de pedra, tendo uma espessura de 45 centímetros no seu ponto mais estreito, revestimentos incluídos;
  • A estrutura cobertura poderá ser abobadada ou em carpintaria, e o revestimento superior da cobertura deve ser respectivamente em lajes de pedra ou em telhas cerâmicas;
  • O piso interior deve ser ligeiramente elevado com respeito ao calçamento exterior e diferenciado deste em revestimento;
  • É possível incluir, com parcimônia, elementos arquitetônicos, paisagísticos e mobiliário urbano no entorno imediato da edícula, demonstrando o seu papel no espaço público e explicitando a escala da edificação.

Apresentação

Uma prancha analítica de uma composição clássica, executada em desenho técnico e entregue em formato PDF, compreendendo:

  1. Detalhe canônico da ordem clássica — base, capitel e entablamento em elevação de canto, mais detalhes em planta, corte e vista inferior conforme necessário — em escala 1:10 ou ajustar para melhor encaixe na prancha;
  2. Elevação, corte, planta baixa e planta do teto na escala 1:25;
  3. Outros detalhes e implantação conforme apropriado;
  4. Mostrar em traços leves, porém precisos, a construção geométrica das proporções empregadas na composição geral e na ordem clássica.

O título do trabalho deve incluir a identificação da ordem clássica escolhida — nome da ordem e o seu autor, por exemplo:

Analítico com a ordem jônica segundo Palladio

Critérios de avaliação

Critério Valor
Aplicação correta da ordem clássica em suas proporções e detalhes 10
Senso de espacialidade e de implantação correto e bem expressado 10
Aplicação correta dos elementos da construção tradicional, em harmonia com a ordem clássica 10
Desenho correto e preciso, mostrando o traçado regulador das proporções 5
Prancha composta de modo elegante e legível, com todas as informações necessárias 5
Total 40

Você também deve atender ao seguinte:

Bibliografia

As referências indicadas abaixo devem ser usadas como ponto de partida para uma pesquisa mais aprofundada.

  1. D’Espouy, Hector, org. Fragments d’architecture antique d’après les relevés et restaurations des anciens pensionnaires de l’académie de France à Rome. Vol. 1. Paris: Charles Massin et cie., 1923. http://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.213903.
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Exemplos de composição de prancha

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