Estudo analítico: a cabana primitiva

Arquitetura tradicional · Atvidade de nivelamento

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[O] propósito [do estudo analítico] é garantir ao estudante, antes de ingressar no estudo da arquitetura propriamente dita, o comando de certo conhecimento das coisas necessárias para representar adequadamente uma edificação proposta.

Objetivo

Dominar algumas convenções fundamentais da arquitetura tradicional e da sua representação gráfica.

Contexto

Figura 1: Charles Eisen, desenhista e gravurista, alegoria da cabana primitiva para a 2.ª edição do Essai sur l’architecture de Marc-Antoine Laugier, 1755

Arquitetura é construção. O propósito da arquitetura é, antes de mais nada, o de oferecer abrigo e contexto para as atividades humanas. Portanto, nenhuma composição arquitetônica pode ser bem-sucedida se não partir de uma compreensão plena do sistema construtivo escolhido. Para isso, temos que visualizar corretamente como os diferentes elementos da construção vão ser acoplados entre si, qual efeito espacial e visual resulta dessa montagem, e como ela precisa ser representada nas convenções do desenho arquitetônico.

A alegoria da cabana primitiva é um expediente para enfatizar o quanto a arquitetura tradicional é uma expressão direta da construção. Ela aparece desde o tratado de Vitrúvio.Vitrúvio, Tratado de arquitetura, liv. II cap. 1.

Depois dele, a versão mais famosa da cabana primitiva foi feita na metade do século XVIII (fig. 1), no ensaio do padre francês Marc-Antoine Laugier.Laugier, Essai sur l’architecture.

A cabana primitiva não tem necessariamente a ver com alguma cultura considerada “primitiva” em particular, e sim com o conceito de uma construção reduzida às suas mínimas necessidades. Ela é sempre pensada como uma montagem simples e racional de elementos em madeira. Por isso, o estudo de uma cabana primitiva qualquer é uma boa porta de entrada para a prática da arquitetura tradicional.

O grau zero da arquitetura representado pela cabana primitiva comparece num tipo peculiar de construção da cultura Jōmon. Essa construção é chamada simplesmente de estrutura com seis pilares, e comparece no sítio arqueológico de Sannai Maruyama, no extremo norte da ilha de Honxu (fig. 2).Jarzombek, Architecture of First Societies, 152–58.

Não é possível determinar, hoje em dia, a função e a configuração precisa dessas estruturas. A reconstituição executada no final do século XX (figs. 3, 4) é uma conjetura baseada na posição das fundações e nos vestígios de madeira preservados graças ao terreno pantanoso do local. A estrutura dessas construções é inteiramente feita em toras e troncos roliços de carvalho; todas as construções eram orientadas aproximadamente na direção leste–oeste.

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Figura 2: Esquema do sítio arqueológico de Sannai Maruyama, cultura Jōmon, 3900–2300 a.C.. a – Situação no território das sociedades pré-históricas que construíram habitações semienterradas, b – Locação junto à baía de Mutsu, atual município de Aomori, Japão, c – Corte do sítio reconstituído

Figura 3: Vista parcial do sítio arqueológico de Sannai Maruyama, reconstituição 1997–2002. Foto: 663highland, 2014
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Figura 4: Reconstituição de uma estrutura com seis pilares, sítio arqueológico de Sannai Maruyama, cultura Jōmon, c. 2600 a.C. Fotos:. a – Koike Takashi, 2008, b – Iwanami Riku, 2015


O estudo analítico, por sua vez, tem sido a porta de entrada no estudo do classicismo desde a organização do ensino na Academia de Arquitetura em Paris, no século XVIII, difundindo-se para o sistema as Escolas de Belas-Artes em dezenas de países, inclusive no Brasil, nos séculos XIX e XX (fig. 5). Na Escola de Belas-Artes de Paris, no final do século XIX, o analítico era uma das provas de seleção para o ingresso no curso de Arquitetura. Na do Rio de Janeiro, no começo do século XX, era um dos primeiros exercícios desenvolvidos pelos alunos ingressantes. Os principais mestres da geração modernista dos anos 1920 — Le Corbusier, Walter Gropius, Lucio Costa e muitos outros — estudaram sob alguma influência do método Belas-Artes. Embora eles tenham instituído teorias e sistemas de ensino opostos ao método Belas-Artes, a obra desses arquitetos demonstra a disciplina, o rigor gráfico e a atenção para proporções e detalhes, derivadas dos seus estudos classicistas.

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Figura 5: Exemplos de desenhos analíticos de ordens clássicas, D.W. Bates. b – observe a representação das juntas entre os blocos de pedra

Ementa

Observe as fotos da estrutura com seis pilares no sítio arqueológico de Sannai Maruyama (ver fig. 4). Observe, também, as convenções de representação exemplificadas na Figura 5. Então,

Desenhe um estudo analítico da cabana primitiva em elevação, corte e planta de teto projetado, evidenciando a montagem dos seus elementos construtivos.

Produto

Numa prancha A3, na orientação vertical, represente a cabana primitiva da estrutura com seis pilares de Sannai Maruyama, em elevação, corte e planta de teto projetado.Veja o que é e como desenhar uma planta de teto projetado em Ching, Representação gráfica em arquitetura, 62; cortes e elevações em ibidem, 69–88.

Todas estas vistas são ortográficas, ou seja, sem perspectiva.

  • Tanto no corte quanto na elevação, mostre as juntas entre as peças em madeira.
  • O traçado regulador, a ser representado nos desenhos com o peso de linha mais leve, é uma malha de 4,2 metros em todas as direções, medida no eixo dos pilares e na superfície dos pisos.
  • Aproveite a simetria do conjunto da estrutura para otimizar o aproveitamento da folha de desenho.
  • Considere que os pilares são troncos roliços com seção (diâmetro) de 1 metro na base e 80 centímetros no topo; a contratura dos troncos deve ser uma curva suave, não uma linha reta.
  • Os pilares são fincados em valas de planta circular, com 2 metros de diâmetro e 1 metro de profundidade, preenchidas com terra batida misturada com cascalho. Represente um detalhe dessa fundação em corte, separadamente do corte da construção como um todo.
  • Considere que as vigas e os contraventamentos são troncos roliços com 50 centímetros de seção, e os barrotes são toras roliças com 35 centímetros de seção; o piso de cada nível acima do solo é formado por troncos roliços com 20 centímetros de seção, colocados lado a lado sem espaços vazios. Represente a sobreposição de vigas, barrotes e piso tanto na planta de teto projetado quanto num detalhe ampliado.
  • Inclua uma escala gráfica e norte; desenhe usando os instrumentos e materiais indicados e siga as convenções de desenho desta disciplina; observe as dicas para digitalizar a sua entrega.

Cronograma e critérios de avaliação

Tabela 1: Cronograma
Data Tarefa
20/07 Lançamento da atividade
27/07 Revisão dos trabalhos em andamento
05/08 Entrega da atividade
Tabela 2: Critérios de avaliação
Critério de avaliação Valor
Interpretação e proporções corretas dos elementos construtivos 4
Projeção ortográfica correta 4
Uso correto e eficaz de pesos de linha, margens, legendas e escalas gráficas 2
Total 10

Referências

As referências indicadas abaixo devem ser usadas como ponto de partida para uma pesquisa mais aprofundada.

  1. Ching, Francis D. K. Representação gráfica em arquitetura. Traduzido por Alexandre Salvaterra. 6.ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2017.
  2. Chitham, Robert. The Classical Orders of Architecture. 2. Ed. Amsterdam: Architectural Press, 2005.
  3. Guadet, Julien. Éléments et théorie de l’architecture: cours professé à l’École nationale et spéciale des beaux-arts. 3e éd. Vol. 1. Paris: Construction moderne, 1915. https://archive.org/details/elementsettheori01guad.
  4. Harbeson, John F. The Study of Architectural Design: With Special Reference to the Program of the Beaux-Arts Institute of Design. New York: Pencil Points, 1926. https://hdl.handle.net/2027/mdp.39015014100054.
  5. Jarzombek, Mark. Architecture of First Societies: A Global Perspective. Hoboken, N.J.: Wiley, 2013.
  6. Laugier, Marc-Antoine. Essai sur l’architecture. 2e éd. Paris: Duchesne, 1755. http://archive.org/details/surlarchitecture00laug.
  7. Pereira da Costa, Francisco. Enciclopédia prática da construção civil. Vol. 14: obras de alvenaria II. Lisboa: Edição do autor : Portugália, 1955.
  8. ———. Enciclopédia prática da construção civil. Vol. 7: pavimentos de madeira. Lisboa: Edição do autor : Portugália, 1955.
  9. ———. Enciclopédia prática da construção civil. Vol. 8: Madeiramentos e telhados. Lisboa: Edição do autor : Portugália, 1955.
  10. Vitrúvio. Tratado de arquitetura. Traduzido por M. Justino Maciel. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Ching, Francis D. K. Representação gráfica em arquitetura. Traduzido por Alexandre Salvaterra. 6.ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2017.
Jarzombek, Mark. Architecture of First Societies: A Global Perspective. Hoboken, N.J.: Wiley, 2013.
Laugier, Marc-Antoine. Essai sur l’architecture. 2e éd. Paris: Duchesne, 1755. http://archive.org/details/surlarchitecture00laug.
Vitrúvio. Tratado de arquitetura. Traduzido por M. Justino Maciel. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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