Espaço ou volume

Hoje em dia, o espaço é a sensibilidade por padrão da arquitetura. Aprendemos a visualizar espaços como manchas fluidas que se reorganizam a cada mudança de posição. Essa é a espacialidade canônica da arquitetura modernaBanham, Teoria e projeto na primeira era da máquina; Argan, El concepto del espacio arquitectónico.

Os objetos da arquitetura são, literalmente, objetos físicos posicionados nesse espaço: pilares, lajes, divisórias, mobília, plantas e obras de arte diversas. figs. 1, 2

Figura 1: Oscar Niemeyer e Departamento de Arquitetura da Novacap, segundo anteprojeto para o andar nobre do Congresso Nacional, Brasília, 1957. Documentado por Elcio Gomes da Silva e José Manoel Morales Sánchez, 2009

Figura 2: Oscar Niemeyer e Departamento de Arquitetura da Novacap, salão Verde do Congresso Nacional, Brasília, 1957–1960. Foto: Brasília na Trilha, 2015

Figura 3: Planta “humanizada” de apartamento brasileiro contemporâneo

A arquitetura moderna corrente também produz volumes claramente delimitados, mas essa solução é mais um compromisso da espacialidade moderna com expectativas funcionais do que uma possibilidade intrínseca à sensibilidade espacial modernista. Ambientes modernistas concebidos como volumes tradicionais claramente delimitados em geral deixam a desejar do ponto de vista da expressividade arquitetônica e da organização formal. fig. 3

Em contraste, as diferentes culturas arquitetônicas tradicionais adotam perspectivas variadas com respeito à leitura de volumes claramente delimitados ou de uma certa fluidez espacial. Na tradição clássica do Mediterrâneo, a volumetria de formas definidas predomina claramente. fig. 4

Figura 4: Francisco Marcelino de Souza Aguiar, engenheiro, palácio Monroe, Rio de Janeiro, 1906. Planta do 1.º pavimento levantada em 1924

Figura 5: Termas de Diocleciano, Roma, 298–306 d.C. Planta: Edmond Paulin, 1890

Figura 6: Miguel Ângelo Buonarroti, arquiteto, Santa Maria degli Angeli e Martiri, Roma, 1562, implantada no tepidário das termas de Diocleciano. Foto: Pedro P. Palazzo, 2015

Já falamos sobre isso antes, mas não custa lembrar: a distinção entre arquitetura tradicional e moderna não tem a ver com qualquer determinismo cronológico. Existem obras tradicionais contemporâneas, e o historiador da arte italiano Giulio Carlo Argan mostrou como a espacialidade moderna tem raízes relativamente antigas, desde o barroco de Borromini no século XVII.Argan, El concepto del espacio arquitectónico.

figs. 7, 8

Figura 7: Sant’Ivo alla Sapienza, corte transversal por Dominique Barrière, c. 1695

Figura 8: Francesso Borromini, Sant’Ivo alla Sapienza, 1642–1660. Planta por Dominique Barrière, 1720

Figura 9: Pátio em frente a Sant’Ivo della Sapienza. Foto: Vlad Lesnov, 2010

Muito menos é um juízo de valor. Tradicional não quer dizer anacrônico e nem antiquado. Construções tradicionais podem ser respostas tão ou mais válidas do que o modernismo para os problemas da sociedade contemporânea. A distinção, como já explicamos, tem a ver com o processo de produção das edificações e o tipo de raciocínio formal que esse processo favorece.

Hegel

Arquitetura simbólica, clássica e romântica.Hegel, Cursos de estética.

Figura 10: Templo de Hathor, Dendera, iniciado em 54 a.C. Desenho: Auguste Mariette

Figura 11: Teto esculpido e pintado no templo de Hathor, Dendera. Foto:Fig Wright, 2011

Figura 12: Templos de Hera em Paestum (Possidônia), séculos VI e V a.C. Foto: V. Alfano, 2012

Figura 13: Leo von Klenze, Reconstituição da Acrópole de Atenas, 1846. Óleo sobre tela

Arquitetura romântica

Figura 15: Modelo digital de Santa Sofia. Realização: Juan Álvarez.

O império Bizantino nada mais é do que a continuação do império Romano ao longo da Idade Média. Na arquitetura religiosa, a continuidade entre a religião da Grécia clássica e o cristianismo do império Bizantino está na ideia de que o local de culto é um microcosmo: uma representação conceitual da ordem do universo.

Figura 16: Cúpula da igreja do mosteiro de Dafni, Atenas, 1080. Foto: Ktiv, 2017

Nesse esquema, as abóbadas da construção representam a abóbada celeste, com a figura do Cristo em majestade dominando a cúpula dourada no centro da nave. fig. 16

O chão com piso em mármores coloridos e as paredes revestidas com o mesmo material representam a terra, onde se movimenta a congregação. fig. 17

Figura 18: Detalhe do piso da igreja menor, mosteiro de São Lucas de Stiris, Grécia, c. 960. Desenho em Robert Schultz e Sidney Barnsley, The Monastery of Saint Luke of Stiris…, 1901

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O microcosmo da igreja bizantina aproxima as figuras celestiais de Cristo e dos santos à congregação terrena. Por isso, a unidade do espaço arquitetônico vai ser um objetivo importante a ser perseguido. As plantas bizantinas mais antigas não são as mais satisfatórias desse ponto de vista. Elas adotam o que chamamos de partido em quincúncia: cinco volumes principais em posições alternadas.

Esse tipo de planta ainda está presente na igreja primitiva da Mãe de Deus no mosteiro de São Lucas de Stiris, na metade do século X, mas vai ser alterada na construção da igreja maior (katholikon) já no início do século XI. fig. 19

Figura 19: Igrejas do mosteiro de São Lucas de Stiris, Grécia, c. 960 e 1011–1012. Planta em Robert Schultz e Sidney Barnsley, The Monastery of Saint Luke of Stiris…, 1901

Figura 20: Igreja do mosteiro de Dafní, Atenas, reconstruída c. 1050. Filmagem: Yannis Tzitzas, 2019.

A definição espacial se volta sobretudo para o interior da edificação. A volumetria externa da construção acomoda, então, todos os elementos que não podem romper a unidade do interior: contrafortes, projeções e reentrâncias da estrutura e dos ambientes, além de deixar a alvenaria aparente, sem revestimento. fig. 20 Isso não quer dizer que o acabamento exterior fosse descuidado, mas que ele não precisava nem representar um edifício prismático simples, como os antigos templos gregos, e nem delimitar um espaço exterior com uma forma geométrica importante.

No Mediterrâneo ocidental, a busca pela definição dos volumes vai seguir outros caminhos entre os séculos IX e XII.

As igrejas dos mosteiros católicos do século VIII em diante são montagens de vários elementos: um adro descoberto cercado por galerias, uma basílica em forma de cruz latina com três naves, e entre esses dois elementos um Westwerk — literalmente “obra ocidental”. figs. 21, 22

Figura 21: Planta reconstituída da igreja na abadia de São Ricário (Cêntula), França, 790–799. Desenho: JMaxR, 2009

Figura 22: Planta reconstituída da igreja na abadia de Corvey, Alemanha, 873–885. Desenho: JMaxR, 2009

O Westwerk forma a fachada oeste da igreja. Mas ele é uma fachada tão incrementada que vira o seu próprio edifício, como o da abadia de Corvey, no norte da Alemanha. fig. 23

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b

Figura 24: Westwerk da igreja na abadia de Corvey, Alemanha, 873–885. Maquete: Fundação Welterbe-Westwerk-Corvey.

Figura 25: Igreja da abadia de Saint-Philibert, Tournus, 928–1120. Vista isométrica dos módulos estruturais das naves, segundo Auguste Choisy, 1899

A chave para resolver as perspectivas contínuas na arquitetura da Europa ocidental é o módulo estrutural. As abóbadas de berço lineares podem ser substituídas por cruzarias, ou abóbadas que se interpenetram. Isso nos dá um módulo simples formado por quatro pontos de apoio e, no século XI, uma abóbada de aresta. Esse módulo resolve a maior parte dos seus empuxos dentro do seu próprio sistema, e descarrega só uma pequena parte desse empuxo nos módulos vizinhos. fig. 25

Isso, por sua vez, permite que a edificação seja construída pouco a pouco, ao longo de muitos anos. Com isso, uma comunidade pode construir igrejas muito grandes ao longo de décadas, sem risco para a estabilidade da obra inacabada. fig. 26

Figura 26: Igreja da abadia de Saint-Philibert, Tournus, 928–1120, segundo Jean Virey, 1903

Figura 27: Saint-Philibert, Tournus, planta com fases sucessivas da construção. Desenho: J. Chancerel, 2018

Figura 28: Saint-Philibert, Tournus, vista da nave central. Foto: Christophe Finot, 2014

Figura 29: Robert de Luzarches, arquiteto, depois Thomas e Renaud de Cormont, chefes de canteiro. Nave da catedral de Amiens, 1220–1270. Foto: Zairon, 2018

Quatro elementos da arquitetura

Volumetria e cultura

Índia antiga e bacia do Mediterrâneo: arquitetura produz espaços; caráter dado pela extensão e forma geométrica dos volumes interiores.

Índia medieval: arquitetura demarca lugares; caráter dado pela posição do monumento, pouca articulação dos espaços interiores — diminutos e/ou receptáculos ornamentados para um ponto focal material.

Arquitetura edicular.Hardy, “Kashmiri Temples”; Bharne e Krusche, Rediscovering the Hindu Temple.

Índia antiga: do lugar ao volume

Figura 30: Reconstituição do Templo 40 em Sāñcī, segundo Percy Brown, 1959

Figura 31: Portal da caverna de Lomas Ṛṣi, Bihar, 250–185 a.C. Foto: Photo Dharma, 2013

Figura 32: Volumetria da caverna de Lomas Ṛṣi. Desenho: Percy Brown, 1959

Templo (pura) é um palácio (prāsāda) abstraído e verticalizado.

Figura 33: Palácios representados em relevos em Sāñchī, Amaravātī e Mathurā, reproduzidos por Coomaraswamy

Figura 34: Procissão de Prasenajit de Kosala deixando Saravasti para se encontrar com o Buda, relevo na toraṇa norte da estupa 1 em Sāñcī, 50–25 a.C. Foto: Biswarup Ganguly, 2017

Características do palácio indiano

  • Elevado sobre uma plataforma baixa, com acesso por uma escadaria com balaustradas e cujo primeiro degrau é semicircular;
  • Alongado na direção transversal;
  • Primeiro nível aberto, habitação nos níveis superiores;
  • Kūṭagāra: pavilhão coberto no terraço.

Figura 35: Representação de palácios em Amarāvatī e Kāṭhiāwāṛ, reproduzidas por Coomaraswamy

Figura 36: Cidade de Kuśināgarā, cena da guerra das relíquias, relevo na toraṇa (portada) sul da estupa 1 em Sāñcī, Madhya Pradesh, reinado de Sātakaṇi II, 50–25 a.C. Foto: Anandajoti Bhikku, 2017

Figura 37: Reconstituição do portão da cidade de Kuśināgarā segundo Percy Brown, 1959

Figura 38: Rei Bimbisara partindo de Rajāgṛha para visitar o Buda, relevo na toraṇa sul da estupa 1 em Sāñcī, 50–25 a.C. Foto: Biswarup Ganguly, 2017

Figura 39: Reconstituição de um portão de cidade indiana antiga, por Coomaraswamy. Níveis superiores

Figura 40: Reconstituição de um portão de cidade indiana antiga, por Coomaraswamy. Nível térreo

Figura 41: Relevo na passarela elevada da estupa 1 em Sāñcī, 50–25 a.C. Foto: Photo Dharma, 2017

Figura 42: Cena celestial, toraṇa leste da estupa 1 em Sāñcī, 50–25 a.C. Foto: Biswarup Ganguly, 2017

Ásia medieval: do volume ao lugar

O desenvolvimento de volumes com formas geométricas claramente definidas não é um progresso linear, nem muito menos inevitável, rumo a um objetivo predefinido. O desenvolvimento da arquitetura hinduísta na Índia, a partir do século V d.C., percorre o caminho inverso.

Os ritos hinduístas não reúnem uma grande congregação num mesmo lugar para uma liturgia demorada; em vez disso, eles têm procissões e demonstrações individuais ou familiares de devoção. Por isso, os templos não precisam de um amplo espaço interior. A volumetria externa é priorizada. fig. 43

Figura 43: Gruta n.º 10, Ajanta, Mahārashtra, oeste da Índia, século I a.C. Corte transversal por James Fergusson, Illustrated Handbook of Architecture v. 1

Figura 44: Salão chaitya maior nas grutas budistas de Karli, Mahārashtra, oeste da Índia, 50–70 e 120 d.C. Corte perspectivado por Percy Brown, 1959

Figura 45: Gruta hinduísta n.º 15, Ellora, Mahārashtra, c. 550–800. Foto: Sailko, 2019

Figura 46: Gruta maior hinduísta, complexo hindu-budista de Elephanta, Mahārashtra, c. 550. Planta por TheMandarin, 2010

Figura 47: Passeio pela gruta hinduísta de Elephanta. Filmagem: Wonderliv Travel, 2018.

Figura 48: Plantas e cortes do Kailaśanath em Ellora. Desenho em Henri Stierlin, Índia hindu

Figura 49: Mandapa de Shiva, Kailaśanath, Ellora. Foto: Sailko, 2019

Os templos com espaço interno muito pequeno ou mesmo inexistente são mais comuns no sul da Índia, na região tâmil.

Figura 50: Templo da orla, Mahaballipuram. Filmagem: Rajinikanth, My Travelling Chronicles, 2021.

Figura 51: Templo da orla, Mahaballipuram, reino Pallava, primeiro quartel do século VIII. Planta: Sarah Welch, 2021

Em vez de ter um grande salão interior, o Templo da orla em Mahaballipuram, do início do século VIII, apresenta um volume verticalizado muito marcante. fig. 50

Figura 52: Pancha ratham (cinco carros), Mahaballipuram, c. 630. Foto: G. Saravanan, 2007

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Figura 53: Esquema de sucessão num lugar sagrado. Desenhos de Vinayak Bharne e Komal Panjwani, em Vinayak Bharne e Krupali Krusche, Rediscovering the Hindu Temple. a – marco sagrado sob uma árvore, b – o marco é convertido num pequeno oratório, c – oratório ampliado com cobertura efêmera; o lugar se torna um ponto focal da comunidade, d – o oratório é ampliado para se tornar um templo rudimentar, e – o lugar sagrado persiste mesmo após a morte da árvore; o templo é ampliado e o entorno se urbaniza

No leste da Ásia, a composição de volumes claramente definidos nunca foi uma prioridade. Algumas cavernas no noroeste da China apresentam uma leitura espacial clara, mas esses exemplares são a exceção numa cultura que assume a fluidez espaciais decorrente dos esqueletos em madeira.

Mediterrâneo: elaboração de volumes

  • Cristo Pantokrator, Bizâncio
  • Igreja dos Dízimos, Kiev
  • Portão dourado, Vladimir
  • Catedral de Ani
  • Complexo de Sanahin, Lori
  • São Ciríaco, Genrode
  • São Miguel, Hildesheim
  • Dom zu Speyer
  • Sainte-Foy de Conques
  • Durham Cathedral
  • Canterbury
  • Duomo di Cefalù
  • Santa Maria Novella, Monreale
  • Santiago de Compostela
  • Santo Sepulcro
  • Duomo di Modena
  • Duomo di Pisa
  • Batistérios: Pisa, Pavia, Parma, Florença

Alberti

Ocupação do solo: regio, area, partitio. Implantação e divisas.

Nikolaus Pevsner

  • História da construção = história da técnica
  • História da função = história econômica
  • História do estilo = história da arquitetura

Visão reacionária de Pevsner sobre pertinência de aspectos materiais no domínio da arquitetura. Não subscrevemos à distinção acima.

Multiplicação de programas arquitetônicos específicos desde a revolução industrial:Pevsner, A History of Building Types.

  • Monumentos nacionais e ao intelecto
  • Edifícios do poder político tradicional:
    • Castelos ou palácios
    • Paços municipais
  • Edifícios do poder político moderno:
    • Parlamentos
    • Administração do estado central
    • Prefeituras e administração local ou regional
    • Tribunais
  • Teatros
  • Bibliotecas
  • Museus
  • Hospitais
  • Prisões
  • Hotéis
  • Bolsas de valores e bancos
  • Armazéns e edifícios de escritórios
  • Estações ferroviárias
  • Mercados, conservatórios e galerias de exposição
  • Oficinas, comércios e lojas de departamentos
  • Fábricas

Não é que essas necessidades não existissem antes (com algumas exceções, como a ferrovia). O que muda com a revolução industrial é a especifidade dos requisitos funcionais e, em vários casos, a escala das áreas no programa de necessidades.

Tipos distributivos

A história da arquitetura contemporânea se desenrola em torno da transição de tipos edilícios preconcebidos para composições com elementos individuais predefinidos — salas, vestíbulos, circulações — e daí para projetos a partir de programas funcionais abstratos.

Composição e distribuição

  • Composição: proporcionar as formas e as dimensões das salas e das circulações segundo a sua importância e propósito
  • Distribuição: dispor e interligar as salas e as circulações segundo a conveniência prática e as convenções sociais

Ambas essas ações dizem respeito, é claro, ao que chamamos hoje em dia de necessidades funcionais da arquitetura: ou seja, atender às áreas estipuladas no programa de necessidades e fazer com que a circulação e o serviço no edifício aconteçam do modo mais eficiente possível. Mas a composição e a distribuição também dizem respeito a necessidades simbólicas e sociais: mostrar de algum modo o caráter do edifício e o seu papel na cidade e na sociedade, deixar claro onde estão os destinos principais da circulação dentro dele, etc.

Tipologia tradicional, composição clássica e projeto moderno

A existência de um certo número de tipos — ideias de edificações dadas a priori — é um dos aspectos que definem uma cultura arquitetônica como sendo tradicional.Petruccioli, “Exoteric, Polytheistic, Fundamentalist Typology”.

Há vários esquemas teóricos que tentam explicar como os tipos se formam e se transformam.Muratori, Studi per una operante storia urbana di Venezia; Moudon, “Typomorphology”.

Um desses esquemas, proposto pelo professor C. William Westfall da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos,Westfall, “Building Types.

propõe reduzir todas as formas tangíveis dos tipos edilícios a sete propósitos sociais abstratos. fig. 54

Figura 54: Sete tipos edilícios. Baseado em Westfall, 1991

Figura 55: Andrea Palladio, arquiteto, esquemas de composição de diferentes ville segundo Hersey e Freedam

Como quer que seja, a tipologia edilícia visualiza as construções no seu conjunto com uma organização predefinida ainda que flexível. Mas, ao longo do Renascimento na Europa, esses tipos gerais começam a ser desmembrados em partes que podem ser recombinadas de diferentes modos. Nas ville ou casas de fazenda projetadas por Andrea Palladio na segunda metade do século XVI, o que define o caráter das construções não é a aderência a uma ideia visual predefinida — que não estava consagrada até então — e sim a exploração de variações num esquema de distribuição de salas principais e secundárias.Schumacher, “The Palladio Variations”.

fig. 55

A partir da metade do século XVIII, vemos uma tentativa de racionalização dos programas arquitetônicos a partir do conceito de “distribuição” dos ambientes.Etlin, “Les Dedans; Blondel, De la distribution des maisons de plaisance, et de la décoration des édifices en général.

Figura 56: Comparação de palácios romanos e genoveses dos séculos XVI–XVIII. Desenhados por J.N.L. Durand, Recueil et parallèle des édifices de tout genre…, pr. 54

Na escola Politécnica (escola de engenharia), Durand ensina projeto arquitetônico reduzindo os programas a princípios gerais com estilos intercambiáveis. fig. 56

No sistema de Durand, a composição não é racionalizada segundo programas estritamente funcionais, mas segundo a destinação geral do edifício.Durand, Précis des leçons d’architecture données à l’École polytechnique; Durand, Partie graphique des cours d’architecture.

fig. 57 É um modo de dar um reset nos propósitos fundamentais da arquitetura.

Figura 57: J.N.L. Durand, resolução de composições para edifícios privados com proporção de 3:1 nos vãos. Partie graphique des cours d’architecture…

Figura 58: J.N.L. Durand, edifícios planejados sobre grelha uniforme. Partie graphique des cours d’architecture…

Em vez de desenvolver as necessidades contemporâneas em cima do legado das formas já elaboradas pelo processo tipológico, Durand quer recomeçar do zero criando novas formas a partir de um plano cartesiano dividido por uma grelha homogênea. Esse procedimento deixa claro que qualquer hierarquia formal ou espacial proposta sobre essa grelha é uma decisão de certo modo arbitrária. fig. 58

O Renascimento abriu o caminho para se pensar no edifício não mais como uma ideia de conjunto e sim como uma composição de elementos — salas e circulações — de formas predefinidas. Em cima disso, a grelha uniforme proposta como método de composição por Durand abre o caminho para se pensar no edifício como uma soma de áreas definidas num programa de necessidades. Portanto, na sequência da tipologia tradicional e da composição clássica, vamos chegar ao projeto na arquitetura contemporâneo.

Compor ou projetar

O professor Helio Piñón, da Universidade de Valência, na Espanha, articulou uma teoria do que é o projeto arquitetônico moderno. Segundo Piñón:

De agora em diante, o papel do projetista não se reduz mais a gerir com maior ou menor competência convenções tipológicas e sistemas de ordenamento sem margem para controvérsias: a partir de agora, a sua atividade implica plenamente a concepção de edifícios segundo critérios que variam caso a caso. E tudo isso sem contar com regras predefinidas que garantam a correção do produto: o processo de projeto se dedica, em todo caso, a encontrar as leis formais específicas que darão identidade à obra […]Piñón, Teoría del proyecto, 102 (grifo nosso).

Podemos questionar se é válido projetar como quer Piñón, sem levar em consideração nada além dos critérios intrínsecos a cada programa considerado “caso a caso” e também se é realmente possível eliminar toda a bagagem cultural prévia, seja ela clássica ou “modernista”. De qualquer modo, essa teoria é útil para confrontarmos o paradigma, digamos, não moderno de uma arquitetura baseada na composição com elementos predefinidos.

Figura 60: Claude Perrault, Ordem das cinco espécies de colunas segundo o método dos Antigos, 1683

Esses elementos podem ser físicos, como as cinco ordens canônicas da arquitetura clássica, aqui na forma do sistema de proporções desenvolvido pelo erudito francês Claude Perrault no final do século XVII. fig. 60

Esses elementos também podem ser os vazios entre a matéria construída. Na arquitetura tradicional, esses vazios quase sempre têm uma forma geométrica fácil de apreender e nitidamente delimitada pelos elementos da construção. Portanto, os elementos da construção servem para delimitar elementos de composição que são a utilidade da arquitetura.

Elementos de composição

Formas volumétricas

Mais cedo, dissemos que arquitetura é construção. Mas para que serve a construção? O seu propósito, como nos diz Semper na sua alegoria da cabana primitiva,Semper, Die vier Elemente der Baukunst.

é cobrir e delimitar os lugares onde acontece a vida social.

Formas básicas de construções

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Figura 61: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – Formas arquitetônicas primárias: adaptações do quadrado, triângulo e círculo, exemplos teóricos de tipos edilícios primários, p. 56, b – Exemplos históricos dos tipos arquitetônicos básicos, p. 57


a
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Figura 62: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – Casos teóricos de deformação dos tipos primários, p. 58, b – Exemplos históricos de edifícios baseados em geometrias deformadas, p. 59


a
b

Figura 63: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – Exemplos teóricos de divisão e ruptura em espaços edificados, p. 60, b – Exemplos históricos de edifícios desconexos, p. 61


Figura 64: Rob Krier, Architectural composition, 1988. Exemplos teóricos de fragmentos geométricos, p. 62

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Figura 65: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – Exemplos teóricos de composições aditivas, p. 63, b – Exemplos históricos de edifícios aditivos, p. 65


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Figura 66: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – Exemplos teóricos de composições intersecantes, p. 66, b – Exemplos históricos de edifícios compostos de interseções de elementos, p. 67


Formas básicas de volumes

Figura 67: (a) Espaços convexos na teoria da sintaxe espacial. Desenho por Michael Batty e Sanjay Rana

A unidade mínima da composição é um volume delimitado, com uma forma geométrica inteligível. Essa definição é diferente de outras teorias do espaço arquitetônico, como a sintaxe espacial. fig. 67 Para a sintaxe espacial, a unidade mínima é o espaço convexo:Hillier et al., “Space Syntax; Batty e Rana, “The Automatic Definition and Generation of Axial Lines and Axial Maps.

uma forma geométrica qualquer onde todos os seus pontos podem ser visto a partir de todos os outros.

A sintaxe espacial é um método de análise da arquitetura. Já a teoria da composição tradicional é um método de produção da arquitetura. Por isso, o nosso foco não é tanto na consistência matemática da definição de espaço, e sim no significado social de volumes enquanto lugares associados a diferentes expectativas culturais. fig. 68 Essas formas podem ser convexas ou não, mas sempre formam uma unidade claramente articulada.Krier, Architectural Composition.

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Figura 68: Rob Krier, Architectural composition, 1988. Volumes interiores. a – quadrados, p. 73, b – octogonais, cruciformes e circulares, p. 75

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Figura 69: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – geometrias distorcidas, sequências rítmicas e espaços retangulares, p. 74, b – sobreposição de formas básicas, p. 76

Formas geométricas com ângulos ou contornos muito incomuns, como ovais, triângulos ou polígonos não retangulares são muito pouco usadas em qualquer tradição arquitetônica. Essas formas geram muito desperdício de área, já que temos cantos ou bordas difíceis de aproveitar. Além disso, elas são também pouco práticas para fazer ligações com outras formas. Onde elas podem ser bastante úteis, por outro lado, é no preenchimento de espaços residuais entre volumes mais importantes. fig. 70 Essa combinação nos mostra como uma usar a hierarquia entre volumes para priorizar a regularidade e simplicidade geométrica das salas mais importantes e acomodar as funções secundárias em formas irregulares.

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b

Figura 70: Rob Krier, Architectural composition, 1988. a – espaços triangulares e formas especiais, p. 78, b – aplicações práticas de espaços aditivos e intersecantes, p. 77


Siheyuan (pátio entre 4 alas) e gong (salão central, corredor perimetral e passarela coberta de ligação): Zhou em diante

Curtis

Vãos e módulos em elevação

Estudo de massas

Proporção e articulação de elevações

Proporcionar espaços

Poché e mosaico

Elementos de composição na tradição mediterrânea

Um dos aspectos mais difíceis na composição é determinar corretamente a proporção relativa de área e importância arquitetônica entre … áreas dedicadas a um uso específico e áreas necessárias simplesmente para acesso e circulação.Curtis, Architectural Composition, 67.

Vestíbulos exteriores

Vestíbulos incorporados

Circulação vertical

Escadarias monumentais quase sempre no exterior dos edifícios; pouca atenção a escadarias interiores antes do Renascimento.

Configuração das salas

Pode-se dizer que a disposição das salas numa sequência e ordem lógicas é o objeto primordial da composição arquitetônica.Ibidem, 104.

Corredores e passagens

Pátios

Bibliografia

Argan, Giulio Carlo. El concepto del espacio arquitectónico desde el barroco a nuestros días. Traduzido por Liliana Rainis. Curso dictado en el Instituto Universitario de Historia de la Arquitectura, Tucumán, 1961. Buenos Aires: Nueva Visión, 1973.
Banham, Reyner. Teoria e projeto na primeira era da máquina. Sao Paulo: Perspectiva, 1975.
Batty, Michael, e Sanjay Rana. “The Automatic Definition and Generation of Axial Lines and Axial Maps. Environment and Planning B: Planning and Design 31, nº 4 (agosto de 2004): 615–40. https://doi.org/10.1068/b2985.
Bharne, Vinayak, e Krupail Krusche. Rediscovering the Hindu Temple: The Sacred Architecture and Urbanism of India. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars, 2012.
Blondel, Jacques-François. De la distribution des maisons de plaisance, et de la décoration des édifices en général. Paris: Charles-Antoine Jombert, 1737. http://www.e-rara.ch/zut/110626.
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Durand, Jean-Nicolas-Louis. Partie graphique des cours d’architecture faits à l’École royale polytechnique depuis sa réorganisation... Paris: l’auteur, 1821.
———. Précis des leçons d’architecture données à l’École polytechnique. Paris: l’auteur, 1802.
Etlin, Richard A. “"Les Dedans," Jacques-François Blondel and the System of the Home”. Gazette Des Beaux-Arts, nº 91 (abril de 1978): 137–47. http://www.academia.edu/4302235/_Les_Dedans_Jacques-Francois_Blondel_and_the_System_of_the_Home.
Hardy, Adam. “Kashmiri Temples: A Typological and Aedicular Analysis”. In Indology’s Pulse: Arts in Context: Essays Presented to Doris Meth Srinivasan in Admiration of Her Scholarly Research, organizado por Doris Srinivasan, Corinna Wessels-Mevissen, e Gerd J. R. Mevissen, 261–86. New Delhi: Aryan Books International, 2019.
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Hillier, B, A Leaman, P Stansall, e M Bedford. “Space Syntax. Environment and Planning B: Planning and Design 3, nº 2 (dezembro de 1976): 147–85. https://doi.org/10.1068/b030147.
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