Princípios da forma urbana

  • Lugar tem precedência sobre o tempo
  • Parataxis
  • Res publica e res economica
  • Transect
  • Clássico e vernáculo

Figura 1: Léon Krier, Civitas, 1983

Figura 2: Transecto urbano, por Duany, Plater-Zyberk & Co.

Figura 3: Transecto natural, por DPZ

Figura 4: Transecto urbano, baseado em DPZ

Arquitetura urbana

Figura 5: Léon Krier, ajuste da arquitetura urbana, 2003

Elementos da forma urbana

Tipos de urbanização

  • Tell (cidadela)
  • Aldeia–rua
  • Castrense ou wangcheng 王城
  • Kampong
  • Cidade difusa?

Cidadela

Figura 6: Léon Krier, modos suburbano e urbano de definição de limites

Figura 7: Cidadela de Micenas, Grécia heládica (Idade do Bronze), c. 1250 a.C.

Planta da cidadela de Tirinto, Grécia heládica, baseada nas escavações de Heinrich Schliemann em 1884. Desenho: Wilhelm Dörpfeld

Aldeia–rua

Figura 8: Burton-upon-Trent, Inglaterra, burgage plots medievais no levantamento cartográfico de 1760

Figura 9: Birmingham, Inglaterra, segundo o levantamento de 1731 por William Westley

Figura 10: Daniel-Charles Trudaine, coordenador, Atlas das estradas da França dito Atlas Trudaine, 1745–1780. Volume da circunscrição de Ruão, fl. 17, Le Vaudreuil. Arquivo Nacional da França cota CP/F/14/8502

Plano castrense

Figura 11: Planta da cidade de Mileto, Ásia menor grega, replanejada no século V a.C.

O nome “plano castrense” remete ao castrum, o acampamento militar romano. No entanto, esse tipo de urbanização está longe de ser exclusividade da cultura imperial romana, e sequer foi inventado pelos romanos. Ele aparece muito antes, na Grécia do século V a.C., nos planos chamados hipodâmicos. Esse nome é uma referência ao arquiteto Hipódamo de Mileto, que divulgou e popularizou o uso da planta em retícula que já tinha sido usada na sua cidade. fig. 11

O uso da malha viária em retícula se generaliza na Grécia do período Helenístico. Em Priene, fig. 12 a rigidez do plano desconsidera até a forte inclinação do terreno. Essa escolha cria condições particulares de inclinação dos lotes e tem impacto no custo das construções.

Figura 12: Priene, cidade grega na Ásia menor. Reconstituição por Rocío Espín Piñar

Figura 13: Planta reconstituída do castrum (forte romano) permanente de Iciniacum, próximo a Theilenhofen, atual Alemanha. Desenho: Mediatus

Figura 14: Acampamento militar temporário de uma legião romana

Figura 15: Argentorate, forte romano permanente, atual Estrasburgo, França. Reconstituição: Jean-Claude Golvin

Figura 16: Ammaia, Lusitânia romana

Figura 17: Reconstituição de Ammaia

Figura 18: Esquema da centuriação romana

Figura 19: Ager centuriatus romano

Figura 20: Remanescentes da centuriação romana na planície Padana, norte da Itália. Foto de satélite do acervo do Museo della Centuriazione Romana

Figura 21: Cidade romana de Lambaesis, na atual Argélia. Desenho por Jean-Claude Golvin

Figura 22: Wangcheng, Kaogongji, Zhouli, xilografia século IX a partir de um original do século V a.C.

Figura 23: Módulos urbanísticos da cidade ideal chinesa. Wang Weijen, 2010

Kampong

Figura 24: Kampung em Bali, Indonésia. Produção: OmniHour, 2019.

No Sudeste asiático, a matriz geradora do urbanismo é o kampung: uma gleba agrícola e residencial associada a uma família estendida ou a uma pequena comunidade política. As principais cidades mercantes se formam pelo adensamento gradual de vários kampung ao longo de caminhos estruturantes e à volta de templos e palácios fortificados. fig. 24

Os reinos do Sudeste asiático se destacam pela sua diversidade étnica e religiosa. Os impérios hindu-budistas de Srivijaya e Majapahit figs. 25, 26 controlam o comércio marítimo de especiarias e as exportações chinesas para o Ocidente. Assim, Trowulan se torna um centro de poder econômico e político muito próspero. Mas, acima de tudo, as cidades malaias demonstram modos de organizar o espaço urbano e de construir perfeitamente adaptados ao clima equatorial.

Figura 25: Império de Srivijaya, séculos VIII e IX. Mapa: Gunawan Kartapranata, 2009

Figura 26: Arquipélago de Nusantara no auge do império Majapahit, século XIV. Mapa: Gunawan Kartapranata, 2009

Caracterizar a urbanização malaia esbarra no problema do vocabulário que se usa para definir e descrever o que é “urbano”. Até a segunda metade do século XX, estava mais ou menos entendido que uma civilização que se preze devia ter cidades — e só contam como cidades os grandes assentamentos muito densos encontrados na Europa, no mundo Árabe, na Índia e no “extremo Oriente”.

O kampung é muito diferente do paradigma urbanístico chinês e europeu, de grandes cidades com um sistema cartorial de propriedade do solo e uma distinção nítida entre espaço público e espaço privado. Essa diferença já aparecia desde o século XV, com o assentamento dos primeiros comerciantes chineses no Sudeste asiático, e mais ainda entre os séculos XVII e XIX, quando os colonizadores europeus segregaram as cidades malaias em bairros ocidentais, chineses e “nativos”. fig. 27

Figura 27: Mapa da cidade de Cingapura G.D. Coleman, 1839

Figura 28: Hans-Dieter Evers

Com base nas diferenças urbanísticas, os chineses e sobretudo os britânicos consideravam o kampung malaio como primitivo ou inferior. Foi só no final da década de 1970 que o urbanista alemão Hans-Dieter Evers fig. 28 apresentou, na bibliografia ocidental, o urbanismo malaio como um paradigma alternativo ao do urbanismo chinês, e igualmente legítimo.

Figura 29: Arrozal em terraços em Batad, Banaue, Filipinas Foto: Uwe Aranas, 2008

Kampung significa “povoado” em malaio e em indonésio. A configuração típica do kampung vem desde as origens da agricultura no Sudeste asiático. fig. 29 O conjunto se organiza em torno de um caminho estruturante ou de um ponto focal importante, como um templo, uma mesquita ou um complexo palaciano.

O kampung resulta diretamente da distribuição dos arrozais num grupo comunitário e da sucessão familiar sem partilha da terra. Como as terras são sempre propriedade coletiva de famílias estendidas, elas não se dividem em lotes menores e mais estreitos ao longo das gerações, como aconteceria no leste da Ásia e na Europa.Mohd Sahabuddin, “The Establishment of ’Air HouseStandard in Tropical Countries.

Além disso, Evers mostrou que as divisas geométricas entre glebas do kampung são pouco importantes, em comparação com o uso dos espaços e dos recursos tangíveis.Evers, “The Culture of Malaysian Urbanization.

O critério mais relevante de organização do espaço é as redes de parentesco, que determinam a localização de casas principais e secundárias e o acesso a hortas e plantações. fig. 30 À medida que a população da comunidade cresce, cada casa pode ser ampliada segundo um sistema de ambientes modulares fig. 31.Lim, The Malay House; ap. Beng, Hamid, e Hung, “Unleashing the Potential of Traditional Construction Technique in the Development of Modern Urban Mass Housing.

Figura 30: Esquema de um kampung rural simples. Desenho reproduzido em Mohd Sahabuddin, 2012

Figura 31: Sequência tipológica da casa malaia. Lin, 1991, ap. Beng et al., 2015

Do mesmo modo, o kampung como um todo também se adensa até virar um distrito urbano compacto. Esse processo continua na urbanização contemporânea e tem sido um fator de manutenção da identidade regional, como num projeto da década de 1990 para um kampung nas Filipinas pela firma americana Duany, Plater-Zyberk & co. fig. 32

Figura 32: Kampung contemporâneo nas Filipinas, por Duany, Plater-Zyberk & co., 1997

Figura 33: Rede central de atividades religiosas e políticas em torno de Trowulan, capital do império Majapahit, no século XIV. Hall, 1996, 97

Partindo do kampung como unidade social e urbanística de base, os estados malaios organizam o território em redes de poder político e autoridade religiosa. fig. 33 No século XIV, o poder político e religioso no império Majapahit é sinalizado pela construção de um pura ou templo hinduísta.

Figura 34: Pura de Trowulan, século XIV. Hall, 1996, 99

No entanto, o pura é mais do que um simples local de culto.Hall, “Ritual Networks and Royal Power in Majapahit Java.

O recinto retangular funciona também como fortificação, e dentro dela fica, além do templo, o palácio real. Do lado de fora da entrada principal, ao norte, está a praça do mercado. Outras moradias da corte e um mosteiro budista se aglomeram em volta do pura. fig. 34

Rua e praça


Figura 35: Léon Krier, rua–corredor e rua–lugar

Bairro e arrabalde

A cidade mediterrânea medieval é um sistema de cidadelas inseridas num traçado estruturante de aldeias–rua.

Traçado estruturante e traçado de implantação

Figura 36: Sítio arqueológico de Kostyonki no vale do rio Don, sudoeste da Rússia, ocupação c. 14.000 a.p. Desenho com base em Jarzombek (2013) e Grigor’ev (1967), curvas de nível a cada 5 metros. Linha tracejada grossa: percurso estruturante de cumeada; linha tracejada fina: percursos de cumeada secundários; linha pontilhada: percurso de contra-cumeada

Figura 37: Modelo teórico de estabelecimento de traçados estruturantes na Itália da Idade do Bronze, segundo Gianfranco Caniggia e Gian Luigi Maffei

Figura 38: Interação entre processos espontâneos e planejados de formação de traçados, segundo Caniggia e Maffei

Figura 39: Modelo de formação dos tecidos urbanos segundo Gianfranco Caniggia e Gian Luigi Maffei

Figura 40: Modelo de ocupação de quarteirão urbano sobre traçado estruturante, de implantação e de ligação, segundo Caniggia e Maffei

Figura 41: Narai, Japão, parcelamento edilício de base sobre traçado estruturante, segundo Caniggia e Maffei

Figura 42: Formação de tecido urbano num arrabalde de Florença, segundo Caniggia e Maffei

Figura 43: Urbanização planejada de geometria orgânica: traçados estruturante e de implantação na cidade baixa de Coimbra, século XIV, em mapa de 1934

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Figura 44: Reconstituição do processo urbanístico de Castelo de Vide, Alentejo. a – desenvolvimento do traçado estruturante da aldeia–rua, anterior ao século XIII, b – ruas estruturantes secundárias e traçado de implantação, final do século XIII, c – ocupação das ruas de trás e formação dos quarteirões perimetrais, século XIV, d – abertura dos quarteirões perimetrais com servidões (ruas de ligação), século XV ou anterior

Figura 45: Mousky, Cairo, baseado na planta de Goad, 1905

Figura 46: Comunidade cristã no arrabalde norte de Alepo, Síria, sob o império Otomano, c. 1900. David, 2008

O arrabalde costuma ter um traçado viário radioconcêntrico. A separação de comunidades é menos marcada do que na medina.

Waqf (mãos-mortas) — amortização e desamortização.

Portos do Sael

Figura 47: Impérios do ouro e sal e rotas comerciais na Idade Média. Smithsonian Institution National Museum of African Art, 2020

Figura 48: Delta interior do rio Níger no final da estação das chuvas. Foto do satélite MODIS, NASA, 2001

Figura 49: Império do Mali no final do reinado de Mansa Musa (1337). Mapa: Gabriel Moss, 2016

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Figura 50: Zaria, atual Nigéria, agrupamento de complexos domésticos. a – foto aérea da década de 1950, b – planta por Hakim & Ahmed, 2008

Figura 51: Zaria, atual Nigéria, complexo doméstico e percurso de acesso segundo Hakim & Ahmed, 2008

Parcelamento do solo como matriz

Figura 52: Escalas de parcelamento do solo segundo Philippe Panerai: pequenos lotes urbanos; várias casas num lote; quarteirão inteiro como lote único

Transformações do traçado

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Figura 53: Modos de evolução do tecido urbano, segundo Carlos Dias Coelho (2015). a – acima: adição elementar; meio: adição por extensão; abaixo: justaposição, b – acima: sobreposição; meio: sedimentação por deformação; abaixo: sedimentação por regularização


Adição

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Figura 54: Saverio Muratori, processo de urbanização do bairro Rialto, Veneza. Studi per una operante storia di Venezia, 1959. a – II Fase, século XIV, b – III Fase, século XVI


Justaposição

A justaposição é rara nos tecidos construídos tradicionais. Geralmente, ela ocorre quando há alguma barreira natural impedindo a continuidade do tecido, como um barranco ou um curso d’água, ou ainda quando há uma exigência militar pela manutenção de uma área desimpedida para defesa. As três condições ocorrem juntas na cidade de Carcassonne, no sudoeste da França. fig. 55

Figura 55: Carcassonne, cidade velha fortificada e bastide (cidade planejada) do século XIV. Reconstituição por Jean-Claude Golvin

Sedimentação

Figura 56: Évora, traçado romano sobreposto à planta urbanística atual. Desenho: Pedro P. Palazzo, 2019

Figura 57: Como, Itália, II fase da ocupação romana. Levantamento por Gianfranco Caniggia, 1965

Fechamento de via com lote na Europa medieval. fig. 57 Também pode ocorrer, inversamente, a abertura de uma via onde antes ficava um espaço cívico cercado, como um fórum, ou mesmo coberto, como um mercado. fig. 58

Figura 58: Área do campo de Marte em Roma; vermelho: traçado atual; preto: traçado antigo reconstituído

Sedimentação por desvio das testadas para dentro da caixa da via na China medieval (figs. 59, 60).

Figura 59: Esquema da via imperial numa capital chinesa

Figura 60: Transição do distrito do mercado na dinastia Tang para a rua do mercado na dinastia Song, por meio da construção de lojas permanentes no espaço público das avenidas

Conversão de estruturas temporárias em permanentes: mercados nas cidades chinesas figs. 61, 62 e europeias.

Figura 61: Esquema de um mercado num dos nove distritos de uma cidade planejada na China da dinastia Tang
Figura 62: Distrito do mercado oriental em Chang’an durante a dinastia Tang


Conversão de um temenos (recinto especializado) em tecido urbano mediante sedimentação e sobreposição de novas ruas. fig. 63

Figura 63: Anfiteatro romano de Florença e tecido urbano resultante

Figura 64: Esquema de um feudo medieval, em William R. Shepherd, Historical Atlas, 1923

Bibliografia

Beng, Gan Hock, Zuhairi Abd Hamid, e Foo Chee Hung. “Unleashing the Potential of Traditional Construction Technique in the Development of Modern Urban Mass Housing. Malaysian Construction Research Journal 16, nº 1 (junho de 2015): 59–75.
Evers, Hans-Dieter. “The Culture of Malaysian Urbanization: Malay and Chinese Conceptions of Space. Urban Anthropology 6, nº 3 (1977): 205–16. https://www.jstor.org/stable/40552862.
Hall, Kenneth. “Ritual Networks and Royal Power in Majapahit Java. Archipel 52, nº 1 (1996): 95–118. https://doi.org/10.3406/arch.1996.3357.
Lim, Jee Yuan. The Malay House: Rediscovering Malaysia’s Indigenous Shelter System. Pinang: Institut Masyarakat : Central Books, 1991.
Mohd Sahabuddin, Mohd Firrdhaus. “The Establishment of ’Air HouseStandard in Tropical Countries : Part 2”. Firrbudi Aka Lensahijau, outubro de 2012. http://lensahijau.blogspot.com/2012/10/the-establishment-of-air-house-standard.html.