Cultura doméstica no Mediterrâneo

Figura 1: Mediterrâneo ocidental na época romana

Figura 2: Sítio arqueológico de Lattara, feitoria etrusca no sul da Gália, séculos VII a.C.—III d.C. Desenho: Gailledrat e Vacheret, 2020

Figura 3: Macroparcela 27 de Lattara com as fundações de três casas de células etruscas. Desenho: Lebeaupin, 2014, ap. Gailledrat e Vacheret, 2020

Figura 4: Casa absidial no subúrbio de Lattara. Reconstituição: M. Mondou, reproduzida por Gailledrat e Vacheret, 2020

Nas cidades planejadas da Grécia antiga, os lotes eram rasos, quase quadrados, e os quarteirões eram pequenos. Em alguns casos, como em Olinto, fig. 5 as casas eram geminadas só pelas divisas laterais. Nos quarteirões de Olinto, os lotes tinham cerca de 60′ (sessenta pés) de lado, ou pouco mais de 17 metros. Os fundos eram separados uns dos outros por uma servidão muito estreita, com só 5′ de largura, ou 1,20 metro.Cahill, Household and City Organization at Olynthus.

Figura 5: Quarteirões em Olinto, Grécia, 432–348 a.C. Desenho em Cahill, 2002

Figura 6: Planta esquemática da casa A vii 4 em Olinto, segundo Cahill, 2002

A tipologia da casa grega urbana se dividia em dois tipos mais difundidos: a casa com pastas ou salão em forma de pórtico e a casa com prostas, ou pórtico na frente de uma sala separada.Graham, “Origins and Interrelations of the Greek House and the Roman House”.

No tipo de casa com pastas, a sala principal no térreo abria diretamente para o pátio, e ela tinha uma ou duas células laterais sem abertura direta para fora, além de uma série de células funcionais atrás do pastas, incluindo a cozinha. fig. 6 Em casas mais ricas, o pastas podia dar uma volta inteira no pátio e formar um peristilo.

Perto da entrada da casa ficava uma sala de jantar social ou masculina, o andron, geralmente acessado por uma antessala.

Já o tipo com prostas tinha um pórtico entre o pátio e a sala principal, chamada de oikos. Nesse caso também, o pórtico se abria sempre que possível para o sul. Essa composição se aproxima do tipo da régia, com um mégarōn atrás de um pátio. Ela se encontra nas casas na cidade de Priene (figs. 7, 8) e de outras cidades gregas.

Figura 7: Casas em Priene, reconstituídas por Whitley, 2001

Figura 8: Casas em Priene. Reconstituição por Gabriel Gourdoglou

Figura 9: Reconstituição de casas em Olinto

A regularidade das construções escavadas em Olinto e em outras cidades planejadas indica que se valorizavam a equidade na distribuição da propriedade e uma relativa homogeneidade, ou isonomia em grego, no modo de vida dos cidadãos. Além disso, as casas seguiam, sempre que possível, a mesma orientação solar: a ala principal da casa se abria para o sul, sobre o pátio. fig. 9 A galeria coberta no primeiro andar fig. 10 protegia os ambientes do sol a pino no verão, mas deixava entrar o sol de inverno, mais baixo.

Figura 10: Reconstituição de um pátio em Olinto, segundo Brunner

Figura 11: Olinto, casa das cores, reconstituição por Cahill, 2002

Por outro lado, a orientação solar idêntica obrigava a mudar o posicionamento da entrada das casas segundo a posição da rua com respeito ao lote. fig. 11

Em contraste com a casa grega, a casa romana privilegiava a regularidade e a axialidade da composição acima da orientação solar. Isso era especialmente o caso nas moradas mais ricas, onde o ritual de receber “clientes” era importante.

Figura 12: Esquema de uma domus romana. Modelo: José Antonio

Figura 13: Planta esquemática de uma domus na cidade romana de Pompeia, c. século I a.C.–I d.C. Desenho: August Mau, 1899

Figura 14: Planta da casa de Salústio, Pompeia, c. século II a.C.–I d.C. Desenho: August Mau, 1899

A importância dessa axialidade fica mais evidente em casas da elite, implantadas em lotes maiores, como a casa de Salústio. fig. 14 A composição principal dessa casa ignora as divisas do lote e forma um conjunto quase perfeitamente simétrico tanto na fachada quanto na planta. Em contraste, os anexos, como as lojas, fig. 14, n.º 4–9 e os espaços privativos da família, como os jardins com peristilo e o átrio secundário, fig. 14, n.º 31–35 se acomodam no espaço residual entre a composição axial e as divisas irregulares do lote. A vista é desimpedida desde a entrada principal da casa até o tablinum, a sala onde o chefe da família recebia os seus clientes. fig. 15

Figura 15: Casa de Pansa, Pompeia, vista do átrio através do tablinum até o peristilo. Reconstituição segundo Mau, 1899

O átrio da casa romana é sempre cercado por beirais amplos, geralmente sustentados por duas vigas principais que vencem o vão estrutural mais curto e sustentam outras duas vigas secundárias. fig. 16 Esse sistema deixa o pátio totalmente livre de colunas. fig. 17

Figura 16: Planta estrutural de um átrio toscano, segundo Mau, 1899

Figura 17: Corte longitudinal da casa de Salústio, Pompeia, século II a.C., compreendendo fauces, átrio e tablinum. Desenho: Mau, 1899

Figura 18: Esquema de uma cisterna romana

Figura 19: Cisterna na casa do átrio em U, Aregenua, Gália romana (atual sítio de Vieux-la-Romaine, Normandia)

Os beirais do átrio oferecem uma circulação ao abrigo do sol e da chuva. Eles também canalizam a água para uma cisterna central, debaixo do piso. fig. 18 Deixar a água parada na cisterna ajudava a decantar as impurezas, mesmo quando o abastecimento vinha de um aqueduto e não da coleta da água de chuva. Outra canalização desaguava o excesso da cisterna sobre a rua. fig. 19

Ao contrário da sociedade grega, a romana admitia grandes desigualdades socioeconômicas que se refletiam no tamanho das casas. Uma casa muito grande, como a casa do Fauno em Pompeia, fig. 20 refletia não só um proprietário rico, como também uma família estendida vivendo no mesmo teto — característica das classes altas — e muitos escravos domésticos. Por isso, a ampliação de uma casa romana se fazia sempre replicando os módulos básicos: o eixo fauces–átrio–tablinum e o jardim com peristilo. As dimensões desses módulos e dos ambientes que faziam parte deles, por outro lado, variavam pouco (exceto a do jardim).

Figura 20: Planta da casa do Fauno, Pompeia, reformada após 66 d.C. Desenho: Mau, 1899

Figura 21: Reconstituição da casa de Maomé em Medina, c. 622 d.C., segundo Leacroft, 1976

A casa árabe urbana na bacia do Mediterrâneo combina características dos tipos grego e romano com adaptações bioclimáticas e construtivas originárias da Mesopotâmia. O tipo originário da casa árabe é, na verdade, uma morada rual. Ela parte de um terreiro cercado amplo, onde se podiam arrebanhar os animais da família durante a noite. Um dos lados desse cercado tinha um pórtico aberto para o terreiro, sem divisórias internas. O modelo paradigmático desse tipo é a descrição que foi transmitida através das gerações da casa do profeta Maomé em Medina, no início do século VII d.C.. fig. 21

O modelo da casa de Maomé é especialmente importante enquanto exemplar específico porque ele não só representa o tipo árabe de base: ele também serviu de modelo para as primeiras mesquitas, e, portanto, deu origem ao desenvolvimento tipológico dessas construções mais especializadas. Isso mostra que a tipologia não está vinculada à “função” das construções, no sentido moderno, mas a um processo de evolução orgânica da cultura edilícia.

Figura 22: Casa no Cairo, atualmente o Museu Gayer Anderson. Desenho por Leacroft, 1976

A casa urbana na bacia do Mediterrâneo se desenvolveu em paralelo com o adensamento das cidades. No mundo antigo, só algumas cidades muito populosas, como a própria Roma, faziam jus a edifícios de apartamentos e casas com mais de dois pisos. Mais adiante, ao longo da Idade Média, a necessidade de abrigar o maior número possível de pessoas dentro das muralhas e o desenvolvimento do comércio acabam fomentando o adensamento urbano. Mesmo as casas de famílias relativamente ricas são compactas e se desenvolvem mais verticalmente do que horizontalmente. Em muitos casos, o térreo acaba sendo totalmente dedicado ao trabalho — lojas, oficinas ou depósitos. A área social da casa, incluindo o pátio (sahn), vai ser então erguida para uma espécie de “andar nobre”, no primeiro andar ou, pelo menos, meio nível acima do térreo. Os ambientes privativos da família ocupam mais um ou dois pavimentos acima do andar nobre. fig. 22 Como nas casas da antiga Mesopotâmia, a cobertura da casa árabe é um terraço habitável.

No Mediterrâneo medieval, a casa muito raramente é “coletiva” no sentido de um prédio de apartamentos. Mesmo assim, construções relativamente verticalizadas e com muita área útil existem, para abrigar uma família estendida. É o caso dos tighremt ou casarões rurais dos berberes, nas montanhas da Argélia e do Marrocos. fig. 23

Figura 23: Tipologia dos tighremt berberes no vale do Draa, Marrocos, segundo Arena e Raffa, 2018

Figura 24: Processo tipológico de formação do salão largo na edilícia de base da península Ibérica, séculos VI–X, segundo Felix Arnold, 2017. Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Cartagena, séculos VI–VII; Puig Rom (Girona), séculos VI–VII; Vilaclara (Barcelona), século VII; Gózquez de Arriba (Madri), séculos VIII–IX; Castillo de Peñaflor (Jaén), séculos IX–X; Pechina (Almería), século X; Medina Azahara (Córdoba), século X

No início da Idade Média, a casa de tipo romano no Mediterrâneo ocidental deu lugar à casa com pátio e salão largo. fig. 24 Esse salão lembra o pastas da casa grega; ele era usado para várias funções sociais e familiares, o que dá a entender que a casa passou a ser um espaço mais recluso da família, sem muita abertura para estranhos. O salão largo estava disposto transversalmente ao pátio. Em geral, evitava-se a disposição axial da entrada ao salão que caracterizava a casa romana.Arnold, Islamic Palace Architecture in the Western Mediterranean, 30.

Sete tipos edilícios

Figura 25: Sete tipos edilícios. Baseado em Westfall, 1991

Os sete tipos edilícios fundamentais fig. 25 correspondem a sete categorias de propósitos sociais da arquitetura. Esses propósitos se encontram em praticamente todas as sociedades que constroem tipos de edificações diferenciadas entre si. Os tipo foram concebidos por C. William Westfall, professor na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, no início da década de 1990.Westfall, “Building Types.

Figura 26: Modelo de uma casa romana de classe média alta

Figura 27: Tabernas romanas em Ostia

Figura 28: Insula em Ostia

Figura 29: Régia: Cidade proibida, Pequim, séculos XIII a XIX

Figura 30: Mégarōn: Modelo do Partenon na Acrópole de Atenas

Figura 31: Tholos: Templo do amor, jardins de Versalhes

Figura 32: Teatro romano em Dougga, atual Tunísia, reconstituição por Jean-Claude Golvin

Figura 33: Fórum de Trajano e Basílica Ulpia, início do século II d.C. Desenho: 3coma14, 2011

Tipologia processual

Figura 34: Le Corbusier, arquiteto, maquete do plano Voisin com a sua inserção no centro histórico de Paris (1925)

Figura 35: West End, Boston, demolição do bairro para construção do novo centro administrativo. Foto: Lawrence Lowry, 1959

Figura 36: Henri Poelaert, arquiteto, palácio de Justiça de Bruxelas. Foto de 1905

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Figura 37: Saverio Muratori, processo de urbanização do bairro Rialto, Veneza. Studi per una operante storia di Venezia, 1959. a – II Fase, século XIV, b – III Fase, século XVI

A tipologia processual é uma metodologia de análise e projeto desenvolvida na década de 1950 por Saverio Muratori, quando ele era professor na Universidade de Veneza.Muratori, Studi per una operante storia urbana di Venezia.

Figura 38: Tipos de células base do Mediterrâneo ocidental. Desenho: Pedro P. Palazzo, 2021

A obra de Muratori foi organizada numa teoria sistemática por alguns dos seus alunos, como Gianfranco CaniggiaCaniggia e Maffei, Lettura dell’edilizia di base; Caniggia e Maffei, Il progetto nell’edilizia di base.

e Giuseppe Strappa.Caniggia, Permanenze e mutazioni nel tipo edilizio e nei tessuti di Roma (1880–1930).

Figura 39: Tipos de base e duplicações, levantados na década de 1940 por Gianfranco Caniggia

Figura 40: Centuriação romana

Caniggia, Como.

Figura 41: Como, Itália, II fase da ocupação romana. Levantamento por Gianfranco Caniggia, 1965

Figura 42: Processo tipológico em Como, Itália. Levantamento por Gianfranco Caniggia, 1965

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Figura 43: Mutações diacrônicas na edilícia de base. Gianfranco Caniggia, 1977. a – Florença, Roma e Gênova, b – Pienza

Processo tipológico

Vamos seguir o percurso do processo tipológico da escala da casa à da cidade. A arquitetura islâmica é o ponto de articulação ideal para esse processo porque ela se desdobra do interior para os limites do espaço público, enquanto a arquitetura do norte da Europa, por exemplo, faz o percurso inverso — do espaço público para a delimitação do espaço doméstico.

A casa com pátio do Mediterrâneo ocidental se desenvolve a partir de duas raízes convergentes: o oecus primitivo feito de células espaciais pequenas e a combinação desse tipo com a regia para formar a domus romana, a morada grega ou a casa compacta do Crescente fértil.Strappa, Carlotti, e Camiz, Morfologia urbana e tessuti storici = urban morphology and historical fabrics.

fig. 44

Figura 44: Processo tipológico da casa de células até a casa-pátio. Desenho: Giuseppe Strappa

Princípios do projeto tipológico

Figura 45: Ammaia, Lusitânia romana

Figura 46: Reconstituição de Ammaia

Bibliografia

Arnold, Felix. Islamic Palace Architecture in the Western Mediterranean: A History. Oxford: Oxford University Press, 2017. https://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&scope=site&db=nlebk&db=nlabk&AN=1481501.
Cahill, Nicholas. Household and City Organization at Olynthus. New Haven: Yale University Press, 2002.
Caniggia, Gianfranco. Lettura di una città: Como. [1963]. Roma: Centro Studi di Storia Urbanistica, 1984.
———. Permanenze e mutazioni nel tipo edilizio e nei tessuti di Roma (1880–1930). In Tradizione e innovazione nell’architettura di Roma capitale, 1870–1930, organizado por Giuseppe Strappa, 13–25. Roma: Kappa, 1989.
Caniggia, Gianfranco, e Gian Luigi Maffei. Il progetto nell’edilizia di base: composizione architettonica e tipologia edilizia: 2. Biblioteca di Architettura e Urbanistica. Venezia: Marsilio, 1987.
———. Lettura dell’edilizia di base. Second. Firenze: Alinea, 2008.
Graham, J. Walter. “Origins and Interrelations of the Greek House and the Roman House”. Phoenix 20, nº 1 (1966): 3–31. https://doi.org/10.2307/1086313.
Muratori, Saverio. Studi per una operante storia urbana di Venezia. I. Palladio IX, nº 3–4 (julho de 1959): 97–209.
Strappa, Giuseppe, Paolo Carlotti, e Alessandro Camiz. Morfologia urbana e tessuti storici = urban morphology and historical fabrics: il progetto contemporaneo dei centri minori del Lazio = contemporary design of small towns in Latium. Organizado por Luigi Ramazzotti. T+A Territori. Roma: Gangemi Editore, 2016.
Westfall, Carroll William. “Building Types. In Architectural Principles in the Age of Historicism, organizado por Carroll William Westfall e Robert Jan van Pelt, 138–67. New Haven: Yale University Press, 1991.