Ordem e lugar

A arquitetura organiza o ambiente humano por meio da construção. Essa organização não tem a ver com impor uma rigidez geométrica, mas com os princípios de ordem emergente que atendem às expectativas da percepção do ser humano e da socialização nas diferentes culturas. Esse é um processo global de ordenamento que vai da ocupação do território numa região inteira até a escala dos detalhes construtivos. Por isso, a nossa primeira aproximação ao estudo da arquitetura tradicional vai ser observar a produção de ordem emergente nas várias escalas de ocupação do espaço pelas sociedades.

Figura 1: Modelo atualmente vigente da migração do Homo sapiens. Desenho: NordNordWest, 2014

Reconhecer, ocupar e organizar um lugar no mundo. Essa é uma das mais fundamentais razões de ser das comunidades humanas. Por natureza, a nossa espécie tende a ocupar todos os espaços disponíveis na Terra; desde as origens da humanidade, mais de 200 mil anos atrás no leste da África, as nossas tribos têm migrado e se adaptado a todas as regiões e climas do mundo. fig. 1

Por sinal, a interpretação hegemônica sobre a origem do Homo sapiens está em revisão constante. No final do século XIX e na primeira metade do século XX, as teorias multirregionais eram dominantes. Essas teorias postulavam que a humanidade moderna evoluiu separadamente em diversas regiões desde a mais remota antiguidade; essas teorias eram usadas para justificar diferenças e hierarquias entre diferentes raças humanas. A partir da década de 1960, a teoria monofilética se tornou dominante; essa teoria também é conhecida como “modelo da origem africana recente” e defende que a nossa espécie se formou somente no leste da África entre 300 e 200 mil anos atrás. No entanto, descobertas arqueológicas e pesquisas genéticas recentes mostram que essa população singular de Homo sapiens assimilou outras espécies humanas ao longo da sua expansão na África, Ásia e Europa.

Figura 2: Vista da paisagem de savana no parque nacional do Serengeti, Tanzânia. Foto: Harvey Barrison, 2012

A maneira humana de compreender o ambiente à sua volta e de organizar um lugar nesse ambiente é a chave para a nossa adaptação às condições mais variadas. Essa capacidade vem dos desafios ambientais na paisagem variada e instável nas savanas do leste da África,Buras, The Art of Classic Planning.

a região de origem do gênero humano. fig. 2

A evolução biológica transformou a visão no nosso sentido dominante, mas também nos deu a capacidade de reconhecer padrões no espaço e de guardar esses padrões na memória, para além do nosso campo de visão imediato. Ela nos condicionou a procurar lugares altos e protegidos, como a linha de cumeada do vale do Rift, que é chamado com razão de “berço da humanidade”. fig. 3 A ocupação da linha de cumeada oferece uma posição de reconhecimento da paisagem e de controle sobre o território. fig. 4

Figura 3: Vista panorâmica da garganta do Olduvai, vale do Rift, norte da Tanzânia. Foto: Noel Feans, 2009

A linha de cumeada é um percurso eficiente para as pessoas se orientarem e controlarem o território amplo que a comunidade precisa explorar para o seu sustento. Só que o cume do relevo é muito exposto e longe da água. Por isso, as comunidades procuram controlar os percursos de cumeada principais do território, mas elas estabelecem os seus assentamentos num nível mais baixo, nas cumeadas secundárias.Strappa, Lettura del territorio.

Alguns dos vestígios arqueológicos mais antigos de habitações humanas ocupam essa posição na cumeada secundária. Essa tendência se intensificou a partir do paleolítico superior, o período mais recente do que se chama informalmente de “idade da pedra lascada” ou ainda de “idade das cavernas”. fig. 5

Figura 5: Pinturas rupestres no abrigo de Bhimbetka, 10 mil anos atrás, atual Madhya Pradesh, Índia. Foto: PranjalG431, 2016

O paleolítico não é um recorte cronológico propriamente dito, mas um indicador de tecnologias e modos de vida em diferentes sociedades, algumas delas vigentes até hoje. As comunidades do paleolítico superior costumam ter entre 50 e 500 membros. Elas tendem a viver de modo mais ou menos sedentário, isto é, em povoações permanentes num mesmo lugar durante no mínimo uma estação e até no máximo alguns anos. Isso implica uma escolha premeditada e muito cuidadosa do sítio onde a povoação vai se estabelecer.

No sítio de Kostyonki, no atual sudoeste da Rússia, o rio Don corre de norte a sul formando um vale de meandros com mais ou menos 2 quilômetros de largura. As encostas em volta do vale são suaves, mas sulcadas pela erosão de dezenas de riachos afluentes do rio Don. As linhas de cumeada principais seguem paralelas ao rio, que corre do norte para o sul, a uma distância de 2 a 3 quilômetros da borda do vale. fig. 6

Entre as gargantas dos afluentes, uma série de linhas de cumeada secundárias se ramifica partir da linha de cumeada principal. 14 mil anos atrás, as comunidades do paleolítico superior estabeleceram os seus acampamentos perto do final dessas cumeadas secundárias, logo acima do vale. fig. 7

Figura 7: Maquete do sítio no museu arqueológico de Kostyonki. Foto: Eva Tutin, 2014

Figura 8: Localização no contexto das sociedades pré-históricas com habitações semienterradas

Cada acampamento era formado por algumas cabanas alongadas.Grigor’ev, “A New Reconstruction of the Above-Ground Dwelling of Kostenki; Jarzombek, Architecture of First Societies, 23.

A implantação no final das cumeadas secundárias dava um certo grau de proteção e de controle visual sobre todo o vale. Ao mesmo tempo, os acampamentos não eram longe da água e dos campos de caça e coleta no fundo do vale. fig. 9

Figura 9: Sítio arqueológico de Kostyonki no vale do rio Don, sudoeste da Rússia, ocupação c. 14.000 a.p. Desenho com base em Jarzombek (2013) e Grigor’ev (1967), curvas de nível a cada 5 metros. Linha tracejada grossa: percurso estruturante de cumeada; linha tracejada fina: percursos de cumeada secundários; linha pontilhada: percurso de contra-cumeada

Figura 10: Kostyonki na atualidade. Mapa de base: OpenStreetMap

A organização do território pelos primeiros habitantes humanos no paleolítico superior não era simplesmente uma resposta de circunstância às necessidades particulares do modo de vida caçador–coletor. Essa organização persiste e se consolida ao longo dos milênios. A rodovia que passa perto de Kostyonki ainda segue o mesmo percurso pela linha de cumeada principal, e a cidade moderna ocupa a mesma área no sopé das cumeadas secundárias. fig. 10

No sul da Inglaterra, o Ridgeway fig. 11 é um percurso de cumeada pré-histórico que continuou a ser o principal eixo de referência e circulação pelo menos até a construção das estradas romanas no século I d.C. Hoje em dia, é uma trilha de caminhada bastante popular.

Figura 11: Ridgeway, um percurso estruturante de cumeada no sul da Inglaterra em uso contínuo desde o Neolítico (c. 3000 a.C.). Celtic Trails

Figura 12: Estruturação territorial na Itália da Idade do Bronze, segundo Strappa

Já em regiões muito montanhosas, como a Itália, os percursos de cumeada secundários tendem a se alongar muito. Um desses percursos secundários termina nas colinas que formam o sítio de Roma. fig. 12

Na sequência, a implantação do assentamento determina um raio de ação da comunidade. Ou melhor, vários raios de ação, segundo as várias necessidades — caça, coleta, aquisição de matéria-prima para ferramentas e gestão de resíduos, por exemplo. Esses raios de ação foram conceituados nas décadas de 1960 a 80 pelo arqueólogo americano Lewis Binford.Binford, “The Archaeology of Place”.

Os raios de ação diferenciados da coleta cotidiana, por um lado, e das expedições de caça que duram vários dias, por outro, definem um zoneamento econômico do território (figs. 13, 14).

Figura 13: Esquema do controle do território por um assentamento caçador–coletor, segundo Binford (1982): zoneamento e alcance de um assentamento semipermanente

Figura 14: Esquema do controle do território por um assentamento caçador–coletor, segundo Binford (1982): territorialidade e sucessão de assentamentos semipermanentes

A escolha do sítio, como vimos, é deliberada. Ela se repete em praticamente todas as implantações de territórios em sociedades que são, pelo menos em parte, caçadoras e coletoras. Os sítios privilegiados por caçadores–coletores, por sua vez, continuam sendo relevantes para sociedades que estabelecem assentamentos permanentes e praticam manejo florestal intensivo ou agricultura.

Figura 15: Área Kuikuro do alto Xingu indicando sítios arqueológicos c. 1250–1450, segundo Heckenberger (2003). Círculos com estrela: povoações fortificadas e com terreiro; círculos pontuados: povoações com terreiro; pontos: aldeias

Esse é o caso do território kuikuro no alto rio Xingu desde o século XIII.Heckenberger, “Amazonia 1492”.

Nos vestígios arqueológicos mais antigos, as povoações dominantes se encontravam distribuídas a distâncias regulares, com povoações menores entre elas. fig. 15 O sistema de povoações era estruturado por caminhos largos nas linhas de cumeada.

O teko’á é o território imediato controlado por uma aldeia guarani. fig. 16 A aldeia é estabelecida no final da cumeada secundária, perto da água mas fora do alcance das cheias do rio. Ela controla um perímetro de lavoura e de floresta manejada no seu entorno imediato.Araujo de Souza, Victal, e Sabaté Bel, Lógica de organização territorial guarani; Soares, Guarani.

Figura 16: Diagrama do teko’á guarani, por Araujo de Souza et al. (2016)

Os vários teko’á que formam uma aliança política são organizados em volta de percursos estruturantes nas cumeadas do terreno, entre os rios maiores. fig. 17 Esse território político é chamado de guará.

Figura 17: Diagrama territorial do Guará, por Araujo de Souza et al. (2016)

Figura 18: Diagrama da formação de cidades-estado no Egito neolítico, segundo Kemp

A implantação de povoações na extremidade das cumeadas secundárias permite o controle visual e estratégico de um território bastante amplo. Com o desenvolvimento da agricultura em várias regiões do mundo, essas povoações se adensam. Então, o senso intuitivo de um território controlado por cada comunidade vai se transformando no desenho de fronteiras mais ou menos estáveis entre cidades-estado.Kemp, Ancient Egypt.

Isto é, a definição institucionalizada do território vem antes de uma hierarquização social e política muito pronunciada. fig. 18 Essa territorialidade é uma característica fundamental do processo de urbanização.

Todas as escalas de produção do ambiente tradicional são organizadas à semelhança do território, em estágios sucessivos de ocupação e preenchimento do espaço. A organização do território segue, predominantemente, as formas orgânicas da topografia e vegetação existentes. Quanto mais descemos dessa escala do território para a de assentamentos, construções e detalhes, mais o uso de traçados reguladores e proporções ganha importância.

Proporção e escala

Desde o Renascimento, o conceito de proporção tem sido o de uma condição matemática fixa. Falamos na seção áurea e em outras relações geométricas como a perfeição de formas acabadas. Mas, em quase todas as culturas tradicionais, as proporções não são a finalidade da arquitetura e sim o meio de produzir a arquitetura. As proporções são mecanismos para planejar o espaço com regularidade em escalas sucessivas e ao longo das gerações que constroem uma obra.

As proporções são o primeiro instrumento da arquitetura tradicional. Hoje em dia, os projetos arquitetônicos são condicionados por medidas numéricas: normas que exigem dimensões métricas de ambientes, o cálculo estrutural que estipula quantidades de materiais, o desempenho de componentes que é medido em patamares numéricos… Por isso, as cotas de dimensão e os quadros quantitativos são os elementos mais importantes de um projeto arquitetônico na atualidade.

Figura 19: Claude Perrault, Ordem das cinco espécies de colunas segundo o método dos Antigos, 1683

O uso moderno e contemporâneo das proporções acabou seguindo essa mesma lógica, e prova disso são os tratados das ordens clássicas publicados nos últimos quinhentos anos. O que chamamos de as “cinco ordens” da arquitetura clássica fig. 19 são, de modo muito resumido, receitas para ajustar as proporções de colunas, vigas, arcos e pedestais entre si e com o edifício como um todo.

Figura 20: Detalhe da ordem dórica segundo Vinhola, edição de 1787

Os tratados das ordens, como o do Vinhola no final do século XVI, ensinam essas proporções quase sempre na forma de uma série de cotas que medem a dimensão de cada elemento em módulos e partes de módulos. fig. 20

Esse modo de representar as ordens é muito conveniente para um arquiteto que está na sua prancheta, com escalímetro na mão, precisando fazer um desenho de uma ordem clássica como parte de um projeto mais ou menos acabado. fig. 21 O projeto vai então ser ele próprio cotado e entregue a um construtor que vai transferir essas cotas para as medidas da obra, usando uma trena. É um modo moderno de trabalhar por excelência.Carpo, “Drawing with Numbers.

Figura 21: Detalhes da ordem jônica de Vinhola, em edição de Pierre Esquié, 1922

a
b

Figura 22: Ordem coríntia segundo Chitham (2005). a – configuração geral, b – detalhe da base e pedestal

No final do século XX, essa preferência numérica entrou na era digital com o sistema de proporções decimais nas ordens clássicas de Robert Chitham.Chitham, The Classical Orders of Architecture.

As cotas de Chitham são, literalmente, frações decimais para serem usadas com uma calculadora digital na mão (era a década de 1980), ou mesmo no CAD. fig. 22

As ordens clássicas são o exemplo mais consagrado do uso de proporções fixas na arquitetura, mas nem de longe são o único. Desde a segunda metade do século XIX, a queridinha dos arquitetos é mais abstrata: a seção áurea. Adolf Zeising, um psicólogo alemão, escreveu um livro defendendo que as proporções matemáticas em geral, e a seção áurea em particular, eram estruturas centrais na natureza e na arte.Zeising, Neue Lehre von den Proportionen des menschlichen Körpers.

Foi a partir daí que a mania da seção áurea e a teoria das “geometrias sagradas”Bonell, La divina proporción; Doczi, O poder dos limites.

se desenvolveu.

A seção áurea foi especialmente atraente para os modernistas porque ela oferecia um sistema de proporção suficientemente abstrato e flexível para se adaptar ou, no fim das contas, justificar retroativamente qualquer projeto. fig. 23

Figura 23: Le Corbusier, arquiteto, seção áurea nas fachadas norte e sul da villa Stein, Garches, 1927

Tudo isso é muito interessante, mas não tem nada a ver com o uso das proporções na arquitetura tradicional. Essa maneira de pintar as proporções como objetos de uma beleza acabada e imutável tem uma longa história na teoria da arte desde o Renascimento. Só que essa história representa só uma linhagem artística, que é especificamente erudita, europeia e moderna. Em praticamente todas as outras culturas tradicionais, as proporções não são um resultado da obra de arquitetura e sim um modo de fazer construções.

Figura 24: Reconstituição do abrigo do período Natufiano em Eynan, Israel, c. 15 a 12 mil anos atrás. Haklay e Gopher, 2015

Tudo começa com um círculo. Alguns dos mais antigos abrigos permanentes são cabanas de planta circular. É o caso do sítio arqueológico de Eynan, em Israel, que data de 15 a 12 mil anos atrás (fig. 24).Haklay e Gopher, “A New Look at Shelter 131/51 in the Natufian Site of Eynan (Ain-Mallaha), Israel.

O traçado circular permite determinar todas as dimensões da construção usando praticamente só uma corda, portanto não é de espantar que essas cabanas pré-históricas sejam circulares.

A planta circular é uma solução prática e eficiente para encerrar a maior quantidade de espaço com o menor consumo de material e uma estrutura que estabiliza a si mesma. Por isso, ela continua a ser usada em pequenos depósitos rurais, como este chafurdão no Alentejo. fig. 25


Figura 25: Chafurdão no vale de Cales, Castelo de Vide, Alentejo, Portugal. ADER–AL, 2014

Figura 27: Reconstituição tridimensional de Stonehenge. Joseph Lertola, 2007

A planta circular é quase sinônimo de grandes composições megalíticas em algumas das mais antigas sociedades agrárias. O exemplo mais emblemático é Stonehenge, no sul da Inglaterra. fig. 26 Esse complexo foi construído por uma sociedade neolítica para observar os solstícios, fig. 27 e com isso, provavelmente, ajustar o calendário agrícola.

O traçado geométrico de Stonehenge, que foi reconstituído na primeira metade do século XVIII por William Stukeley e Roger Gale, fig. 28 não está diretamente relacionado com a orientação astronômica do monumento. Ele é um expediente para dar a regularidade que um observador postado no centro do círculo precisa para avaliar corretamente o alinhamento do sol e das estrelas.

Figura 28: Planta do círculo megalítico de Stonehenge, Inglaterra, c. 2600 a.C., com proporções reconstituídas por William Stukeley e desenhadas por Roger Gale, 1723

O círculo é muito conveniente para organizar geometrias precisas e de grandes dimensões, economizando material e esforço. Só que, em várias sociedades, as construções humanas vão ganhando funções mais complexas e mais equipamentos e mobiliário permanentes ao longo do tempo. Nesses casos, a planta circular passa a ser um inconveniente por não ter superfícies retas nem espaço alongados. Nesses casos, o quadrado acaba por ser a forma mais prática.

O quadrado pode se desdobrar numa variedade de retângulos com proporções convenientes. fig. 29 Os mais básicos desses retângulos são o de um quadrado e meio e dois quadrados; essas proporções são análogas a harmonias musicais — a quinta e a oitava — e, por isso, foram muito apreciadas em culturas que atribuíam um significado transcendental às proporções, como a Grécia antiga e o Renascimento.Bonell, La divina proporción.

Na vida real, duas outras relações proporcionais são bastante úteis. Uma delas é o retângulo gerado a partir da diagonal do quadrado, que é uma medida muito fácil de demarcar num canteiro de obra; esse retângulo tem outra propriedade interessante, que é a possibilidade de ser dividido em duas metades com a mesma proporção do retângulo original — essa propriedade está na origem das folhas de papel da série A, que foi desenvolvida no início do século XX pensando na economia do corte de folhas. Outra proporção muito conveniente na construção é aquela que é gerada pela metade da diagonal do quadrado; é uma boa relação entre a largura de um espaço monumental e a espessura das suas paredes — ela foi bastante usada na Europa medieval.Conant, “The After-Life of Vitruvius in the Middle Ages.

Como já vimos, a seção áurea é uma relação proporcional um tanto badalada desde a segunda metade do século XIX.Zeising, Neue Lehre von den Proportionen des menschlichen Körpers.

Acontece que ela é menos conveniente de se executar num canteiro de obra; as suas vantagens dizem mais respeito a uma interpretação transcendental das proporções como espelho da natureza.Doczi, O poder dos limites.

Figura 29: Proporções derivadas do quadrado. Acima: um quadrado e meio ou “quinta”; dois quadrados ou “oitava”; abaixo: retângulo gerado pela diagonal do quadrado e seção áurea; centro: proporções da casa kamayurá e traçado gerado pela meia diagonal do quadrado

A casa tradicional Kamayurá (figs. 30-32) é baseada no retângulo formado pela diagonal do quadrado, que determina a largura do vão central.Kamayurá (povo), Manual da arquitetura kamayurá.

Figura 30: ’Ok eté (casa tradicional) kamayurá, corte segundo Salkuman Kamayurá, 2019

Figura 31: Planta de uma ’ok eté kamayurá

Figura 32: Corte de uma ’ok eté kamayurá

Figura 33: Esquema de proporções na fachada do palácio Farnese, Roma, 1534–1541. Antonio da Sangallo, o novo, e Miguel Ângelo Buonarroti, arquitetos. Croquis: René Salas, 2018

Figura 34: Malha proporcional triangular equilátera, exemplos da arquitetura vernácula alemã: casa rurais das regiões da Vestfália meridional, Francônia superior (Bavária) e casa urbana de Eppingen, Baden, 1471. Joachim Langhein, 2012

Figura 35: Malhas proporcionais triangulares, exemplos da arquitetura erudita tradicional na Suíça: haus zum Ritter, Schaffhausen, 1487–1580; paço municipal da Basileia, 1504–1513; paço municipal de Lausanne, 1673–1675. Joachim Langhein, 2012

Figura 36: Malhas proporcionais triangulares, exemplos da arquitetura erudita tradicional do Mediterrâneo: Oppède-la-Neuf, Luberon, sul da França, e palazzetto Spada, Roma, atribuído a Baldassare Peruzzi e Giacomo Barozzi da Vignola. Joachim Langhein, 2012

Figura 37: Distância e detalhe, por Léon Krier

Uma última consideração importante diz respeito à escala dos elementos da arquitetura. Numa composição equilibrada, a diferença de escala entre elementos maiores e menores nunca é mais do que uma ordem de grandeza, ou seja, dez vezes. fig. 37

As proporções na arquitetura tradicional são expedientes práticos para se compor e executar uma construção ou um complexo espacial. Elas podem ser interpretadas a posteriori desde um ponto de vista transcendental, mas isso não tem necessariamente a ver com o modo como as proporções são usadas de fato no processo produtivo do ambiente construído.

Preferência temporal

Até aqui, falamos de dois aspectos gerais da arquitetura tradicional: a organização do espaço e as proporções como instrumento do processo construtivo. Esses aspectos são ainda bastante abstratos e não passam, afinal, de princípios gerais que sequer nos ajudam a distinguir entre arquitetura tradicional e arquitetura moderna. Para fazer essa distinção, nós temos que olhar para o consumo de energia na cadeia produtiva e como esse consumo influencia a gestão do tempo em diferentes sociedades.

Figura 38: Arquitetura do pico do petróleo. Léon Krier, 2008

A arquitetura tradicional consome muito trabalho manual e um pouco do combustível disponível na natureza — sobretudo água e fogo de lenha. Já a arquitetura moderna usa uma cadeia de usinas, máquinas e instalações movidas predominantemente a combustíveis fósseis, e em contrapartida poupam trabalho manual. fig. 38 Essa distinção vai resultar em atitudes diferentes, por um lado, quanto à vida útil das construções no tempo e, por outro lado, quanto à relação dessas mesmas construções com o clima e o sítio físico. As diferenças de atitude com respeito ao tempo são conhecidas, na ciência econômica, como preferência temporal. Já as diferenças de atitude com respeito ao lugar não têm propriamente um nome, mas para efeito de comparação vamos chamá-las de preferência local.

Figura 39: Barnabas Calder. Foto: Helen @ Gingerbread Design
Figura 40: © Pelican Books, 2021

O arquiteto britânico Barnabas Calder, no seu livro recente Arquitetura da pré-história à urgência climática (fig. 39, fig. 40), defende que a capacidade de gerar e consumir energia foi um dos fatores preponderantes nas transformações nos modos de construir ao longo da história.Calder, Architecture.

Assim como todo o nosso modo de vida contemporâneo, a arquitetura moderna é uma indústria de altíssimo consumo de energia. Duas revoluções energéticas cruciais aconteceram nos últimos trezentos anos: primeiro, com a Revolução Industrial, a força de trabalho manual e a energia diretamente fornecida pela natureza fig. 41 foram substituídas por máquinas movidas a combustíveis fósseis; segundo, desde o final do século XIX, a necessidade de construir edifícios adaptados ao clima foi substituída pela capacidade de consumir energia para aquecer e refrigerar qualquer tipo de espaço em qualquer clima.

A capacidade de gerar e consumir qualquer quantidade de energia que se faça necessária — e que seja economicamente viável — é o que caracteriza as sociedades industrializadas modernas. Nessas sociedades, a energia pode ser extraída do ambiente em quantidades quase ilimitadas. A nossa energia é gerada a partir de fontes fósseis, como o carvão ou o petróleo, atômicas fig. 42 ou renováveis, como a eletricidade produzida em turbinas hidráulicas e eólicas ou em painéis fotovoltaicos. Essa energia industrial, por assim dizer, é relativamente barata, e em proporção a isso, a força de trabalho manual acaba por se tornar relativamente cara.

Na sociedade industrial, portanto, a produção pode, em geral, ser ampliada conforme a demanda. É verdade que a construção civil tem um gargalo de longo prazo, que é a quantidade de arquitetos, engenheiros e operários qualificados que estão ativos no mercado. Ainda assim, mesmo a indústria da construção tem uma certa flexibilidade para acelerar a produção sempre que existir uma demanda correspondente.

Em contraste com a nossa sociedade industrial, nas sociedades tradicionais ou pré-industriais, a energia que pode ser extraída do ambiente é bastante limitada.Calder, Architecture.

O vento e a correnteza dos rios podem até mover moinhos, fig. 43 mas não podem, por exemplo, ser escalados o suficiente para mecanizar a produção de mais moinhos. O calor e o vapor que podem ser gerados a partir da queima de madeira, por outro lado, são diretamente limitados pela superfície de florestas que uma comunidade é capaz de manejar na prática e no longo prazo, além do que, a própria possibilidade de converter calor e vapor em trabalho é muito limitada quando não se tem acesso a materiais industrializados, como o aço.

Onde for custoso gerar energia a partir do ambiente, o trabalho vai ser proporcionalmente mais barato. Isso significa que compensa usar a força bruta, humana ou animal, em várias tarefas que, nas sociedades industriais, tendem a ser mecanizadas. Mas isso implica, também, que o trabalho artesanal especializado é mais acessível e difundido do que numa economia baseada na indústria de massa.

Ao contrário das máquinas, que podem ser produzidas em escala para atender a qualquer demanda, o trabalho humano é limitado pela população local e, mais ainda, pela capacitação técnica dos profissionais especializados. Ou seja, a produção industrial pode ser ampliada tanto quanto os recursos econômicos o permitirem; já a produção artesanal tem uma capacidade mais ou menos fixa para cada comunidade.

Essa capacidade produtiva fixa faz com que a variável dependente na construção tradicional seja o tempo. O tempo que se leva para construir um edifício tradicional tende a ser proporcional ao seu tamanho e ao refinamento da construção. Portanto, o volume e a complexidade das construções que uma sociedade vai realizar depende em grande parte do tempo de trabalho que essa sociedade quer investir nas suas construções.

O conceito de “preferência temporal” é usado em várias ciências sociais para falar sobre a atitude das pessoas com respeito a ações que dependem da passagem do tempo. Na psicologia cognitiva, a “recompensa adiada”, ou seja, a disposição em abrir mão de uma gratificação imediata em prol de um benefício maior no longo prazo, é considerada como um estágio no desenvolvimento mental da criança e às vezes como um sinal de inteligência em outros animais.Carvalho, Pocinho, e Silva, Comportamento adaptativo e perspectivação do futuro; Miller et al., “Delayed Gratification in New Caledonian Crows and Young Children”; Beran e Hopkins, “Self-Control in Chimpanzees Relates to General Intelligence.

Para além dessa perspectiva centrada no comportamento do indivíduo, o conceito de preferência temporal é especialmente importante na análise econômica de processos na escala da sociedade como um todo,Frederick, Loewenstein, e O’donoghue, “Time Discounting and Time Preference”.

inclusive da construção. Para comunidades seminômades que vivem em regiões onde a matéria-prima para a construção de abrigos é abundante, não faz sentido investir na complexidade nem na durabilidade das suas construções. As aldeias da etnia Bagyeli, na África equatorial, fig. 44 portanto, têm uma estrutura bastante engenhosa mas muito rápida de se erguer. Elas são feitas para durarem alguns meses e a aldeia pode ser simplesmente abandonada depois desse tempo, permitindo a regeneração da floresta no local.Jarzombek, Architecture of First Societies.

Figura 44: Cabana do povo Bagyeli, África equatorial. Foto: Nadnad30, 2015

Figura 45: Aldeia nas planícies da América do Norte, c. finais do século XIX. Acervo Wellcome collection

Pelo contrário, sociedades seminômades que vivem em regiões onde a matéria-prima para os seus abrigos é escassa tendem a investir muito tempo e trabalho para refinar habitações leves e portáteis. É o caso de muitos povos que vivem em estepes, como as diversas etnias da Sibéria e da Mongólia, assim como os povos das planícies da América do Norte. fig. 45

Sociedades totalmente agrárias e sedentárias tendem a investir ainda mais tempo e trabalho nas suas construções, ou seja, a terem uma preferência temporal baixa — elas constroem para o longo prazo. Apesar de terem existido comunidades de caçadores-coletores que construíram habitações permanentes e até mesmo arquitetura monumental,Dietrich et al., “Cereal Processing at Early Neolithic Göbekli Tepe, Southeastern Turkey.

esse tipo de produção é mais característico de comunidades que se organizam em torno de um planejamento para conservar ou mesmo multiplicar o valor dos ativos no longo prazo.Galor e Özak, “The Agricultural Origins of Time Preference”.

Sempre que uma sociedade produz o seu ambiente construído com uma preferência temporal baixa, existe alguma forma de propriedade privada e de transmissão da casa familiar por herança. A preferência pelo longo prazo implica que se vai dedicar um esforço considerável para construir não só os grandes monumentos representativos do poder político e religioso, mas até as moradias da população de todas as classes sociais. Construir uma casa que vai ficar de pé durante séculos é, portanto, investir não só no conforto imediato, mas sobretudo na qualidade de vida futura dos filhos e netos.

Figura 46: Gaston Bachelard. Acervo do Arquivo Nacional dos Países Baixos

Outra consequência da arquitetura com preferência temporal de longo prazo é uma grande estabilidade do ambiente construído que cada geração vivencia. Como os edifícios duram muito, a paisagem urbana e rural muda pouco durante a vida de cada pessoa. A identificação afetiva e cultural com as paisagens que parecem ter existido desde sempre é conhecida como topofilia. Esse é um conceito que foi cunhado na literatura pós-romântica, já perto da metade do século XX; ela passou a ser usada no contexto da arquitetura com o pós-modernismo, na segunda metade do século, e sobretudo a partir da publicação dos livros Poética do espaço, pelo filósofo francês Gaston Bachelard (fig. 46),Bachelard, A poética do espaço.

e Topofilia, pelo geógrafo americano Yi-Fu Tuan fig. 47.Tuan, Topofilia.

Figura 47: Yi-Fu Tuan

Figura 48: Léon Krier, Edifícios (da Universidade de Yale) — idade e primeira campanha significativa de reformas, 1990

Mas, se construir com preferência temporal baixa é característica de sociedades sedentárias e com sistemas de propriedade privada, o que aconteceu com a arquitetura depois da Revolução Industrial? Não é nenhum segredo que a vida útil dos edifícios não para de cair, fig. 48 mesmo que a indústria venha desenvolvendo materiais com desempenhos cada vez melhores (pelo menos no papel).

A qualidade dos materiais industrializados é uma das chaves para compreendermos esse processo. Como já vimos, a disponibilidade de energia nas sociedades industriais é incomparavelmente maior do que a das sociedades agrárias e artesanais. Na arquitetura, isso quer dizer que as construções produzidas pela mão dos artesãos foram substituídas por montagens cada vez mais mecanizadas de componentes até certo ponto industrializados fig. 49 — o fato de que as construções são “menos” industrializadas do que carros ou máquinas de raios X não importa tanto, a questão é a tendência.

Figura 50: Léon Krier, custo de construção e custo de manutenção comparados

Ora, mas se a construção está cada vez mais industrializada, por que ela dura menos? Justamente porque uma indústria capaz de fabricar qualquer quantidade de produtos em qualquer tempo tende a assumir uma preferência temporal alta. Se a sociedade industrial contemporânea é capaz de produzir muito mais metros quadrados de construção em muito menos tempo, a preocupação com a manutenção acaba sendo secundária. fig. 50 O ciclo de financiamento do mercado imobiliário atual é baseado na rentabilidade de curto prazo. Conservar os ativos imobiliários no longo prazo não é um fator determinante na organização da cadeia produtiva.

Figura 51: Emissões de CO2 da cadeia produtiva da construção civil. Pesquisa e gráfico: Victoria Luise Schulz-Daubas, 2021

E onde entra o discurso da sustentabilidade nessa lógica de preferência temporal alta? Bom, os componentes de uma construção têm desempenho certificado quando saem da fábrica, mas o tempo pelo qual eles mantêm esse desempenho parece ser sempre superestimado. Por causa disso, mesmo com todo o discurso da sustentabilidade que vem se impondo desde a década de 1970, as emissões de CO2 da cadeia produtiva da construção civil estão crescendo cada vez mais rápido. fig. 51

É claro que essa aceleração contínua da produção industrial e do descarte de produtos industrializados tem consequências, especialmente quando esses produtos são edifícios cada vez maiores. E eu não estou nem falando do passivo ambiental genérico dessa gigantesca pegada de carbono.Keong, “Chapter 1 - Introduction.

Não, as pessoas já estão começando a sentir um baque econômico mesmo; a crise imobiliária de 2008 foi só um solavanco especialmente forte numa tendência mais ampla de declínio na qualidade do universo habitacional industrializado. No final do século XX e início do XXI, várias nações ocidentais chegaram a um ponto inédito, desde o ciclo de crescimento econômico que começou com a Revolução Industrial, em que os filhos vão ter menos riqueza acumulada do que os seus próprios pais.

A preferência temporal alta da construção moderna, portanto, resulta numa arquitetura com valor de consumo imediato — tanto porque essa arquitetura é possível graças ao aporte de energia da indústria, quanto porque a lógica de financiamento contemporânea favorece esse modelo de rentabilidade no curto prazo. O ônus desse modelo, por outro lado, é despejado sobre o meio ambiente, mas também sobre as gerações futuras. Por isso, cabe a reflexão: não será possível, e mesmo necessário, para lidar com a crise climática e a crise de declínio no patrimônio das gerações futuras, retornar para uma arquitetura de baixa preferência temporal? Uma arquitetura produzida lentamente, mas que volte a durar séculos?

Alegoria da cabana primitiva

Nos tratados de arquitetura, o mito de origem da construção é apresentado como uma alegoria da condição humana em geral e do ofício da arquitetura em particular. Essa origem sempre parte de uma comunidade ou de um indivíduo que aprende a imitar o funcionamento da Natureza para desenvolver uma técnica construtiva. A matéria-prima é a justificativa mais adequada para uma taxonomia da tipologia construtiva porque as características dos materiais são determinantes para as propriedades dos sistemas construtivos. Nessa taxonomia, a madeira é o material de construção por excelência, e a cabana primitiva é a sua expressão mitológica. O mito da cabana primitiva aparece em três versões famosas, que vamos analisar junto com o registro arqueológico.

As árvores são o material de construção por excelência. Todas as espécies de hominídeos, dos orangotangos fig. 52 aos gorilas, chimpanzés fig. 53 e humanos, usam as árvores como material e, eventualmente, suporte para construir os seus abrigos. Isso indica que a prática de construir com galhos de árvores pode remontar a até 10 milhões atrás, ao último ancestral comum dos hominídeos.Fruth, “Great Ape Nest-Building”.

Figura 52: Orangotango construindo ninho em Bornéu. Foto: John Fuller, 2013

Figura 53: Chimpanzé no seu ninho na Nigéria. Foto: Cyril Russo, Minden Pictures / National Geographic, 2018

Figura 54: Reconstituição dos abrigos de Terra Amata, 380.000 a.p. Foto: Véronique Pagnier, 2011

Figura 55: Reconstituição de tenda em ossos e peles de mamute de Mezhyrich, Ucrânia, 15.000 a.p., no Museu Nacional de Tóquio Foto: Momotarou2012, 2013

Entre os humanos, os vestígios mais antigos de abrigos podem ter de 15 a 380 mil anos (figs. 54, 55). A espécie humana é a única entre os primatas a usar abrigos coletivos, e também a única a construir uma cobertura completa sobre o abrigo. Hoje em dia, todas as comunidades humanas, mesmo as caçadoras-coletoras, reutilizam os mesmos abrigos por, no mínimo, alguns dias a fio.Venkataraman et al., “Hunter-Gatherer Residential Mobility and the Marginal Value of Rainforest Patches”.

Além disso, os nossos abrigos muitas vezes são construídos com algum objetivo social, funcional ou cultural que não a proteção simples e imediata do corpo humano. Em vários modos de vida vigentes até hoje, tanto de sociedades caçadoras-coletoras quanto de comunidade pastoris e agrárias, é bastante comum as pessoas trabalharem e mesmo descansarem ao relento. fig. 56

Figura 56: Jean-Baptiste Henri Durand-Brager, Gaúchos preparando mate (acampamento do exército de Juan Manuel de Rosas). L’Illustration VII (177), 1846

Figura 57: Comunidade San em volta do lar central de uma aldeia. Foto: Kgara Kevin Rack, 2017

Nesses casos, as construções servem como depósitos utilitários ou ainda como suportes simbólicos para as identidades familiares dentro da comunidade. Em suma, o abrigo humano tradicional sempre é um lar no sentido cultural da palavra.

Esse é o caso nas aldeias dos povos San, no sul da África, onde cada casa pertence a uma família nuclear. fig. 57 A posição da cabana serve para estabelecer as relações entre famílias dentro da aldeia, mas a construção não é usada nem para as atividades cotidianas e nem mesmo para dormir.Jarzombek, Architecture of First Societies.

Esse comportamento social e simbólico contrasta com o dos outros hominídeos, que quase sempre constroem um novo abrigo a cada noite, e usam esse abrigo exclusivamente para repouso de um único indivíduo..Fruth, “Great Ape Nest-Building”.

A diferença entre a mobilidade da maioria dos hominídeos em todo o seu território e o apego dos humanos a um sítio central só foi confirmada no século XX, mas ela está na base de mitos de origem da arquitetura, como a alegoria da cabana primitiva segundo Vitrúvio.

O grau zero da arquitetura representado pela estrutura mais simples possível em madeira comparece num tipo peculiar de construção da cultura Jōmon. Essa construção é chamada simplesmente de estrutura com seis pilares, e comparece no sítio arqueológico de Sannai Maruyama, no extremo norte da ilha de Honxu (fig. 58).Jarzombek, Architecture of First Societies, 152–58.

Não é possível determinar, hoje em dia, a função e a configuração precisa dessas estruturas. A reconstituição executada no final do século XX (figs. 59, 60) é uma conjetura baseada na posição das fundações e nos vestígios de madeira preservados graças ao terreno pantanoso do local. A estrutura dessas construções é inteiramente feita em toras e troncos roliços de carvalho; todas as construções eram orientadas aproximadamente na direção leste–oeste.

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Figura 58: Esquema do sítio arqueológico de Sannai Maruyama, cultura Jōmon, 3900–2300 a.C.. a – Situação no território das sociedades pré-históricas que construíram habitações semienterradas, b – Locação junto à baía de Mutsu, atual município de Aomori, Japão, c – Corte do sítio reconstituído

Figura 59: Vista parcial do sítio arqueológico de Sannai Maruyama, reconstituição 1997–2002. Foto: 663highland, 2014

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Figura 60: Reconstituição de uma estrutura com seis pilares, sítio arqueológico de Sannai Maruyama, cultura Jōmon, c. 2600 a.C. Fotos:. a – Koike Takashi, 2008, b – Iwanami Riku, 2015


A alegoria da cabana primitiva é um expediente para enfatizar o quanto a arquitetura tradicional é uma expressão direta da construção. A cabana primitiva não tem necessariamente a ver com alguma cultura considerada “primitiva” em particular, e sim com o conceito de uma construção reduzida às suas mínimas necessidades. Ela é sempre pensada como uma montagem simples e racional de elementos em madeira. Por isso, o estudo de uma cabana primitiva qualquer é uma boa porta de entrada para a prática da arquitetura tradicional.

VitrúvioVitrúvio, Tratado de arquitetura, II, i.

especulava que o domínio sobre o fogo permitiu aos homens antigos deixarem de viver como “animais selvagens” e passarem a se organizar em sociedade. O relato vitruviano é o tema de uma série de pinturas de Piero di Cosimo no final do século XV. fig. 61 A construção de abrigos (fig. 62) era, para Vitrúvio, um trabalho necessariamente coletivo e que, portanto, só poderia existir em volta do lar — da fogueira familiar ou comunitária.

Figura 61: Piero di Cosimo, Cena de caçada, c. 1494–1500, têmpera e óleo sobre madeira. Metropolitan Museum of Art

Figura 62: Piero di Cosimo, Vulcano e Éolo, c. 1490, têmpera e óleo sobre tela. National Gallery of Canada

Figura 63: Charles Eisen, desenhista e gravurista, alegoria da cabana primitiva para a 2.ª edição do Essai sur l’architecture de Marc-Antoine Laugier, 1755

A origem social da construção foi sendo esquecida aos poucos pelos tratadistas do Renascimento, até ser completamente invertida em 1753 pelo padre jesuíta francês e teórico da arquitetura Marc-Antoine Laugier. fig. 63 O mito da cabana primitiva, na versão de Laugier, relata o raciocínio individual de um homem que tem a intuição de construir observando as árvores.Laugier, Essai sur l’architecture.

Só depois da construção solitária é que se forma uma comunidade para usufruir do abrigo.

A diferença entre o mito da cabana primitiva que Vitrúvio contou no século I a.C. e o mesmo mito na versão de Laugier, no século XVIII, é a diferença entre o conceito tradicional de sociedade, vigente na Antiguidade romana, e o individualismo moderno, que se manifesta primeiro no Iluminismo filosófico e político, e mais adiante no Romantismo artístico. Laugier era um pensador iluminista justamente porque ele partilhava o ideal de primazia do indivíduo com outros autores da sua época, como Rousseau e Voltaire, que aparece aqui sendo celebrado num salão elegante. fig. 64 Esses autores consideravam que a razão é uma faculdade inata e imutável da humanidade — desde que ela pudesse ser exercida livremente, isto é, em caráter estritamente individual.

Figura 64: Anicet Charles Gabriel Lemonnier, Leitura da tragédia « L’orpheline de la Chine », de Voltaire, no salão de Madame Geoffrin, óleo sobre tela de 1812

Figura 65: Leo von Klenze, Templo da Concórdia em Agrigento, 1857

Figura 66: Germain Boffrand, salão oval da princesa, hôtel de Soubise, Paris, década de 1730. Foto: NonOmnisMoriar, 2012

A sequência do argumento de Laugier deixa clara a sua semelhança com a alegoria do “bom selvagem” de Rousseau: segundo Laugier, a arquitetura atinge o seu auge pouco tempo depois da época da cabana primitiva, fig. 65 na Grécia antiga (no século XVIII a cronologia da pré-história e mesmo a do Mediterrâneo antigo ainda não estavam muito bem estabelecidas). Depois disso, a arquitetura degenera pouco a pouco por força de hábitos adquiridos e dos vícios introduzidos pelas convenções sociais.Laugier, Essai sur l’architecture.

Para Laugier, o fundo do poço da arquitetura era a “licenciosidade” do barroco e do rococó. fig. 66 Na prática, Laugier disfarçava uma preferência estética pela clareza visual das colunatas clássicas e neoclássicas como um argumento pela superioridade racional de um retorno às origens da arquitetura.

Figura 67: Jean-Pierre Houël, Tomada da Bastilha, 1789, aquarela sobre papel

Figura 68: Caspar David Friedrich, Andarilho sobre o mar de névoa, 1817

As implicações políticas do individualismo iluminista são bem conhecidas, e desembocam na Revolução francesa a partir de 1789, com a tentativa de formar um sistema de governo baseado na igualdade de direitos. fig. 67 Já as consequências artísticas dessa celebração do individualismo são mais complexas. De uma apologia da razão individual, no neoclassicismo, a arte acabou descambando para uma idolatria da emoção individual no Romantismo. fig. 68 Nos dois casos, o momento de maior pureza de um conceito ou sensação é aquele que está na origem, tida como mais autêntica ou espontânea.

O argumento iluminista e romântico ia no sentido oposto ao de Vitrúvio. Para os antigos romanos, a sociabilidade, e especialmente o consenso num meio-termo justo, estavam na origem de todo progresso, e esse progresso sempre seria atingido por uma sequência gradual de refinamentos sucessivos… ou quase sempre. fig. 69 Vitrúvio não estava elogiando a pureza formal ou conceitual da cabana primitiva: esses são princípios revolucionários e modernos. Em vez disso, Vitrúvio sustentava uma tese tradicional: a de que o trabalho constante, no respeito das convenções sociais, conduz à melhoria contínua dos processos e dos resultados. O ideal romano de um processo social que se desdobra ao longo do tempo vai ser revisitado, e deformado, na segunda metade do século XIX.

Figura 69: Vincenzo Camuccini, A morte de César, 1804–1805

A terceira versão do mito da cabana primitiva foi contada pelo arquiteto alemão Gottfried Semper fig. 70 num artigo de 1851 intitulado “Os quatro elementos da arquitetura”.Semper, Die vier Elemente der Baukunst.

Semper se inspirou numa cabana de índios karib fig. 71 que ele tinha visto na exposição universal de Londres, aquela do palácio de Cristal.Semper, Der Stil in den technischen und tektonischen Künsten, oder, Praktische Aesthetik.

Como a maioria dos europeus do seu tempo, Semper considerava que uma sociedade dita “primitiva” no século XIX seria comparável a uma comunidade do passado remoto, nas origens da humanidade.

Figura 70: Gottfried Semper, fotografia anônima de 1865
Figura 71: Cabana dos índios karib em Trinidad e Tobago, apresentada na exposição universal de Londres em 1851 e publicada por Semper em 1860

Figura 72: Henri Labrouste, arquiteto, biblioteca Sainte-Geneviève, sala de leitura, Paris, 1842. Foto: Marie-Lan Nguyen, 2011

No século XIX, esse pressuposto colonialista era perfeitamente compatível com as opiniões modernas e progressistas que Semper tinha sobre outros assuntos (e foi justamente por causa desse progressismo que ele teve que se exilar da Alemanha, e foi parar na Inglaterra na mesma época que os seus compatriotas mais famosos, Marx e Engels). No caso da cabana primitiva, Semper levou o mito das origens às últimas consequências de um modo que não era concebível para Vitrúvio ou Laugier. Isso porque Semper foi contemporâneo do grande ímpeto de construção com estrutura portante em ferro fundido, independente da vedação das paredes, como nas bibliotecas que Henri Labrouste construiu em Paris (figs. 72, 73).

A possibilidade de separar a estrutura da vedação era uma coisa praticamente inédita na arquitetura erudita da Europa pelo menos desde a Grécia arcaica, depois do século VIII a.C. Foi a realidade tecnológica do esqueleto estrutural moderno que permitiu a Semper pensar a separação conceitual entre estrutura e vedação. E essa separação nos dá dois dos quatro elementos da cabana primitiva na versão de Semper.

Figura 73: Henri Labrouste, arquiteto, Biblioteca nacional da França, sala de leitura principal, 1860. Foto: Émilie Groleau / INHA, 2017

Só que esses dois elementos, a realização construtiva da cabana, são secundários para Semper. Assim como Vitrúvio, ele colocava o fogo em primeiro lugar, mas explicitava a sua posição central como o lar que dá origem à habitação primitiva. E esse lar implicava, por sua vez, a organização do espaço como uma plataforma separada do chão. Os quatro elementos de Semper têm, portanto, uma hierarquia clara:

  1. Lar
  2. Plataforma
  3. Estrutura e cobertura
  4. Vedação

Os quatro elementos se resumem, no fim das contas, às três partes da arquitetura que já encontramos em Vitrúvio, só que numa ordem diferente: primeiro, vem a organização social do espaço; só depois, a construção vem dar abrigo a essa organização; por último, o espaço e a construção são decorados pela superfície da vedação.

Utilitas = Lar e Plataforma

Espaço socialmente organizado

Firmitas = Cobertura

Construção

Venustas = Vedação

Beleza e, mais especificamente, decoro

Essa última parte deriva de um jogo de palavras em alemão, que Semper aproveitou a seu favor (e ele não foi nem o primeiro, nem o último alemão a fazer isso; a etimologia tem essa capacidade de simular alguma verdade profunda). A palavra Wand, que quer dizer parede, é cognata do verbo winden, que significa tecer uma guirlanda ou uma esteira com fibras vegetais. Como a vedação da cabana karib era feita de esteiras de palha, Semper propôs que as artes aplicadas — angewandte Künste em alemão — da tecelagem e da decoração de interiores teriam a mesma origem, e portanto que a vedação com paredes seria algo alheio à pura construção. Nisso, ele se aproximava um pouco da posição de Laugier em favor da clareza das colunatas.

As três versões do mito da cabana primitiva — de Vitrúvio, Laugier e Semper — respondiam a três buscas totalmente diferentes por um significado da arquitetura que pudesse ser encontrado nas origens do ofício. A evolução histórica era um progresso segundo Vitrúvio e Semper, uma decadência segundo Laugier, mas todos concordariam que se tratava de uma mudança de nível e não de essência. Esse progresso ou decadência se move sempre desde uma solução originária e impessoal de um problema humano geral para uma elaboração tardia, autoconsciente e autoral no ofício erudito da arquitetura.

A correspondência direta e necessária entre o sistema construtivo e a aparência arquitetônica é uma justificativa primordial em muitas teorias da arquitetura, tradicionais ou modernas. Mais ainda, a cabana primordial em madeira é um arquétipo constantemente reatualizado em rituais religiosos de várias culturas do mundo todo. Um dos casos mais bem documentados é o de rituais xintoístas de fertilidade no Japão; comunidades de fazendeiros constroem cabanas com madeira verde, que são queimadas ao fim da celebração. Essa prática popular foi documentada pelo antropólogo suíço Nold Egenter na segunda metade do século XX.Egenter, Bauform als Zeichen und Symbol: Nichtdomestikales Bauen im japanischen Volkskult.

Ela se assemelha a um ritual mais formalizado que faz parte da sagração de cada imperador do Japão desde o século VII d.C.: nesse ritual, chamado daijōsai, fig. 75 o novo imperador entra numa cabana em madeira construída especialmente para partilhar uma refeição com a deusa do Sol Amaterasu (representada por três objetos sagrados e um pilar também em madeira).

Figura 74: Cabanas rituais diversas no xintoísmo contemporâneo, Japão, registradas por Nold Egenter, 1980

Figura 75: Daijōgū, cabanas temporárias onde se realizou o daijōsai do imperador Naruhito. Foto: agência Kyodo, novembro de 2019

Em todas as versões do mito ou do ritual da cabana primitiva, a madeira é o material de construção originário. Além de ser uma obviedade histórica e arqueológica, a madeira enquanto matéria-prima por excelência da construção tem uma utilidade crucial nesse mito: ela se presta a praticamente um único sistema estrutural, o esqueleto arquitravado de pórticos (isto é, pilares e vigas). Ao contrário de uma parede em alvenaria portante, que pode ser decorada com colunas, as estruturas em madeira só com muita dificuldade e desperdício de material conseguem imitar paredes de alvenaria. Com isso, a cabana primitiva em madeira funciona como o arquétipo mais característico da construção tradicional. É a partir desse arquétipo que vamos analisar, na sequência, a construção arquitravada.

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