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Fazer arquitetura · II

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Traçado regulador e cosmologia no vāstu śāstra

Figura 1: Reconstituição do assentamento de Arkaim, sul dos montes Urais, c. 2000 a.C. Desenho: Jvtrplzz

Figura 2: Esquemas conceituais de aldeias indo-arianas. Desenho em E.B. Havell, 1918

Figura 3: Aldeia védica com cerca e portal. Desenho em Percy Brown, 1959

Do texto à construção

Vāstu śāstra (tratados de arquitetura) e Śilpa śāstra (tratados artísticos — 64 ofícios não restritos a castas específicas), dentre os quais Mānasāra śilpa e Brahmāṇḍa Purāṇa.

Iluminação recíproca entre textos e construções: não se pode construir sem um sistema; não se pode estabelecer um sistema sem práticas construtivas.

Figura 4: Manduka mandala de 64 casas para o projeto de templos hinduístas. Desenho: Mark Muesse, 2014

Figura 5: Charles Correa, arquiteto, Jawahar Kala Kendra, Jaipur, 1986, planta

Vāstu puruṣa mandala. Em uso atualmente como referência cultural, princípios de geomancia e “auto-ajuda”.

Kuṭikā (cabana ou célula) como arquétipo rural à semelhança do classicismo (figs. 6, 7); a palavra se refere à curvatura das coberturas feitas de galhos, juncos ou folhagens.Coomaraswamy, Essays in Early Indian Architecture, 106.

Figura 6: Representações de cabanas em mosteiros escavados na rocha. Desenho em Percy Brown, 1959
Figura 7: Representações de santuários em cabanas nos relevos antigos. Desenho em Percy Brown, 1959

Figura 8: Construção em madeira reconstituída a partir de espaços escavados na rocha. Desenho em Percy Brown, 1959
Figura 9: Origens formais dos tipos de templos. Desenho em Percy Brown, 1959

Construção originária em teca.Brown, Buddhist and Hindu Periods, 6.

Ornamento e geometria

Nos palácios, o salão largo era substituído por um salão com colunatas laterais. Esse salão com colunatas, por sua vez, deu origem ao iwan com abside e alcovas laterais da tradição islâmica mais tardia.

Figura 10: Processo tipológico do salão palaciano com colunatas, segundo Felix Arnold, 2017

Figura 11: Medina Azahara, Córdoba, 953–957. Planta do palácio superior, por Felix Arnold, 2017

Figura 12: Medina Azahara, Córdoba, 953–957. Elevação do salão superior, por Felix Arnold, 2017

Figura 13: Medina Azahara, Córdoba, 953–957. Esquema do cone visual no salão Rico, segundo Felix Arnold, 2017

Malhas espaciais

Figura 14: Complexo habitacional de Dhishīr, província de Yazd, Irã. Diagramas por Hatef Naiemi, 2018

Figura 15: Complexos de refúgio de Tīzuk e Chāh Afḍal, província de Yazd, Irã. Planta por Hatef Naiemi, 2018

Cidade colagem

Boma

Deixando a costa e avançando para oeste, no interior do continente, mas ainda em territórios de etnias banto, o padrão urbanístico dominante se transforma. No lugar de cidades com casas alinhadas, encontramos complexos agropastoris familiares formando redes mais ou menos densas no território.

O arqueólogo americano Thomas Huffman (fig. 17) definiu, nos anos 1980, o paradigma espacial agropastoril banto como um sistema organizado em torno de um cercado comunitário.Huffman, “Broederstroom and the Origins of Cattle ‐ Keeping in Southern Africa, 7.

Esse cercado, conhecido em suaíle como boma, emerge na Idade do Ferro (c. 500 a.C.) e se declina em inúmeras variações desde a costa do golfo da Guiné até o sul da África.

O boma é, prioritariamente, um curral de gado. Celeiros e espaços para atividades comunitárias também podem estar situados no boma. Ele é controlado por uma liderança política ou chefe de família estendida, que tem a sua própria casa perto desse espaço central.

Figura 16: Esquema teórico de um boma no sul da África: Zimbábue. Desenho: Huffman, 2009
Figura 17: Thomas Huffman

Entre os bètemmeribè, na África ocidental, o complexo agropastoril é conhecido como tata sombatata significa “casa” e somba é a designação formal desse grupo étnico (o termo bètemmeribè significa “bom construtor”). A sua arquitetura foi documentada pela arqueóloga americana Suzanne Blier no final da década de 1980.

Ver também: Trailer do documentário Sur un air de somba

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Figura 18: Tata somba. a – Locação na região fronteiriça entre Togo e Benin. Mapa: Pedro P. Palazzo, 2020, b – Planta. Desenho em Kathleen James-Chakraborty, 2014, baseado em Suzanne Blier, 1994, c – Vista exterior. Foto: Jacques Taberlet, 2008

Redes políticas no território: grande Zimbábue

Figura 19: Boma de uMgungundlovu, Dingane, reino Zulu, 1829

O sistema espacial do boma é a unidade mínima de estratificação familiar e social nas regiões banto. A partir dele, podem ser formadas redes extensas de relações políticas que controlam territórios mais vastos, como era o caso do reino Zulu no século XIX. A sua capital, Dingane, chegou a ter 7000 habitantes com um cercado vasto fig. 19. Esse espaço interior continha uma praça de armas vasta (ikhanda) além dos currais de gado.

O grande Zimbábue (fig. 20) é uma rede territorial que floresceu entre os séculos XI e XV. Essa rede tinha importância estratégica no comércio suaíle, porque controlava as minas de ouro no sul da África. O conjunto é extenso e era densamente povoado: ocupa uma superfície de 730 hectares e pode ter abrigado até dez mil habitantes no seu auge.

O grande Zimbábue se configura como um conjunto de bomas construídos em pedra; as relações espaciais entre os complexos murados parecem semelhantes às relações que se estabelecem dentro de cada sistema boma. A cidadela maior, com muralhas de 11 metros de altura, se situa na cabeceira da rede, e não no centro — a mesma situação da casa dominante num boma individual.

Figura 20: Vista aérea do Zimbábue. Foto: Janice Bell, 2015

Adensamento do boma e malha viária

O traçado estruturante de um caminho é a base para a formação do tecido construído na aldeia–rua da bacia do Mediterrâneo. Já no caso do boma, é o adensamento do sistema edificado que causa a formação dos caminhos. À medida que as comunidades baseadas no boma se tornam mais numerosas e ocupam o território com maior densidade, os cercados se aproximam de formas retangulares. O espaço entre eles começa, então, a tomar a forma de rua–corredor.

Figura 21: Vista aérea de Niamey, Chade. Foto: Walter Mittelholzer, 1930, arquivo da Escola Politécnica Federal de Zurique

Bibliografia

Brown, Percy. Indian Architecture: Buddhist and Hindu Periods. Bombay: D.B. Taraporevala Sons, 1959. http://archive.org/details/in.gov.ignca.18060.
Coomaraswamy, Ananda K. Essays in Early Indian Architecture. Organizado por Michael W. Meister. Collected Works 4. New Delhi: Indira Gandhi National Centre for the Arts : Oxford University Press, 1992.
Huffman, Thomas N. “Broederstroom and the Origins of Cattle ‐ Keeping in Southern Africa. African Studies 49, nº 2 (janeiro de 1990): 1–12. https://doi.org/10.1080/00020189008707724.