Estilo, construção e cultura

No final da última dinastia imperial chinesa e durante o período republicano, pensadores como Gu Jiegang e Liang Qichao adotaram uma perspectiva intelectualmente reformista e cética com respeito à cronologia histórica tradicional. Esse ceticismo estava alinhado com a visão da história desenvolvida na Europa do século XIX. Segundo essa visão, as fontes primárias só têm credibilidade se forem contemporâneas dos eventos descritos.

A historiografia chinesa tradicional se baseava no modelo estabelecido pelo Registros do historiador, fig. 1 um livro compilado no começo do século I a.C. por Sima Qian. fig. 2 Esse modelo organizava a cronologia segundo dinastias reais e imperiais. Como os registros chineses foram recompilados e reescritos várias vezes ao longo dos milênios, os historiadores do século XX consideravam os períodos mais antigos da história chinesa como um enfeite lendário que não corresponderia ao estado primitivo da sociedade naquela época.

Figura 1: Registros do historiador, edição japonesa do século XIV com pontuação e glosas de leitura (kambun). Acervo Biblioteca Nacional Central de Taiwan
Figura 2: Sima Qian


Os historiadores céticos substituíram a cronologia tradicional, segundo dinastias, fig. 3 pelo padrão ocidental moderno de designar culturas arqueológicas. fig. 4 Essas novas interpretações estabeleciam a credibilidade dos pesquisadores chineses num mundo acadêmico dominado por europeus e americanos. Mas, ao mesmo tempo, elas também validavam uma pretensão de superioridade cultural da Europa sobre a Ásia, já que a história mais antiga da China acabava sendo reduzida a um mundo tribal e supostamente primitivo.

Figura 3: Extensão territorial da dinastia Xià (c. 2070–1600 a.C.). Mapa: Lamassu Design, 2009

Figura 4: Extensão geográfica da cultura Erlitou, primeira metade do II milênio a.C.

Figura 5: Jue (tripé para servir vinho), dinastia Xià, século XVIII a.C., bronze, pés reconstituídos. Museu de Shanghai. Foto: H. Sondaz, 2013

Mesmo assim, no final das contas, as descobertas arqueológicas feitas nesse espírito fig. 5 têm confirmado a existência de acontecimentos, lugares e, talvez, das próprias dinastias mencionadas na historiografia chinesa tradicional. Até mesmo a primeira dinastia chinesa, os Xià, parece ter sido confirmada pela escavação de um palácio do início da Idade do Bronze em Erlitou. figs. 6, 7

Figura 6: Planta do palácio I em Erlitou, associado à dinastia Xià, c. 1600 a.C. Desenho: Shibo77, 2011

Figura 7: Reconstituição do palácio I em Erlitou, Museu de Erlitou

Figura 8: Reconstituição parcial do palácio da dinastia Shang em Yin, c. 1300 a.C. Foto: Tak.Wing, 2010

Evolução orgânica do estilo

Figura 9: Ieoh Ming Pei, arquiteto, pirâmide do Louvre, Paris, 1984–1989. Foto: Benh Lieu Song, 2010

A teoria ocidental da História fez mais do que exigir evidências arqueológicas para corroborar os registros historiográficos tradicionais da China. Ela também interpretou a arquitetura chinesa pelo viés de uma teoria muito popular na Europa dos séculos XIX e XX: a teoria da evolução orgânica dos estilos.

Assim como no caso do ceticismo arqueológico, a introdução de um modo de pensar estranho à tradição da arquitetura chinesa acabou gerando oportunidades para pesquisar mais a fundo essa tradição. Esse processo foi impulsionado por uma geração de arquitetos chineses que estudaram nos Estados Unidos na primeira metade do século XX — um deles foi Ieoh Ming Pei, famoso pela pirâmide do Louvre. fig. 9

Figura 10: Lin Huiyin e Liang Sicheng numa viagem pela província chinesa de Shanxi, 1934. Foto: acervo da família Fairbank

A aplicação de interpretações ocidentais ao estudo da arquitetura chinesa foi levada ao seu auge pelo casal formado pela escritora Lin Huiyin e pelo arquiteto Liang Sicheng. fig. 10 Eles foram pioneiros no estudo arqueológico da arquitetura tradicional na China. Os dois tinham estudado na Universidade da Pensilvânia na década de 1920.

Figura 11: Banister Fletcher, árvore da arquitetura, em A History of Architecture on the Comparative Method, 15.ª ed. (1950)

O que estamos chamando aqui de teoria da “evolução orgânica do estilo” já deve ser familiar a esta altura. É o cerne da história da arte e da arquitetura desenvolvida na Europa desde a segunda metade do século XIX; ela está sintetizada na “árvore da arquitetura” apresentada no livro-texto de Bannister Fletcher a partir de 1899. fig. 11 Nessa visão, cada estilo arquitetônico percorre como que o ciclo de um ser vivo: ele parte de um estágio primitivo, se desenvolve até a maturidade, então pára de crescer e termina numa fase de declínio, quando não tem capacidade de se renovar ou “renascer”.

Segundo Fletcher, a tradição da arquitetura chinesa não tinha uma história digna desse nome. Ele argumentava que a evolução do estilo só podia ser orgânica, e portanto legitimamente histórica, quando ela fosse atrelada à resolução de problemas construtivos e espaciais. Fletcher, como muitos europeus e americanos na virada do século XIX, pensava que nenhuma tradição de fora da bacia do Mediterrâneo e da Europa ocidental se ocupava de uma evolução verdadeiramente construtiva ou espacial da arquitetura, e só tinham explorações superficiais da decoração.

Pesquisadores como Liang e Lin internalizaram essa teoria do estilo, mas obviamente queriam afirmar a historicidade da arquitetura chinesa e, assim, refutar Fletcher (alguns historiadores americanos já tinham escrito histórias da pintura e da escultura no leste da Ásia mostrando a sua evolução orgânica, entre eles Ernest Fenollosa). Liang resumiu essa intenção dizendo com todas as letras:

A construção chinesa é uma estrutura altamente “orgânica”. É um [ser de] crescimento nativo que foi concebido e nasceu no passado remoto da pré-história, chegou à “adolescência” na dinastia Han (por volta o início da era Cristã), amadureceu na plenitude da glória e do vigor na dinastia Tang (séculos VII e VIII), envelheceu com graça e elegância na dinastia Song (séculos XI e XII), para então começar a mostrar sinais de velhice, fraqueza e rigidez, a partir do início da dinastia Ming (século XV).Liang, A Pictorial History of Chinese Architecture, 17.

Querela do ornamento

Figura 12: Abadia de Cluny, estágio III, século XII. Reconstituição de Jean-Claude Golvin baseada em Kenneth J. Conant

Figura 13: Nave da igreja da abadia de Fontenay, Borgonha, 1130–1147

Figura 14: Algumas das primeiras igrejas góticas na França, século XII. Amarelo escuro: extensão territorial do reino da França c. 1180; amarelo claro: domínio real

Figura 15: Abadia de S. Dionísio (Saint-Denis), igreja concebida pelo abade Suger e construída 1122–1151. Reconstituição de Jean-Claude Golvin

Tecnologia e profissão

Vocabulário da construção

Palavras e papéis, lista elaborada por Léonore Losserand:

  • Dizer, decidir, dirigir
  • Escrever
  • Calcular, avaliar, pagar
  • Desenhar

  • Transportar
  • Cavar
  • Talhar
  • Alçar
  • Montar
  • Consertar

  • Atestar, receber, inaugurar
  • Limpar
  • Comunicar, transmitir
  • Visitar, ver, ser visto
  • Formar, passar adiante
  • Experimentar

Planejamento e preparação

O conceito de “invenção” de uma solução (formal e tecnológica) se firma na escrita sobre arquitetura a partir do século XII: abade Suger,Rudolph, “Inventing the Exegetical Stained-Glass Window; Stanley, “The Original Buttressing of Abbot Suger’s Chevet at the Abbey of Saint-Denis.

Villard de Honnecourt.Ackerman, “Villard de Honnecourt’s Drawings of Reims Cathedral; Carreira e Villard de Honnecourt, Estudos de iconografia medieval.

Com esse conceito, fica claro que a forma não está dada a priori mas que ela é resultado de uma busca pela melhor solução — claro que adaptando gradualmente o conhecimento estabelecido e não tendo a pretensão de inventar algo do zero.Bork, The Geometry of Creation.

O desenho como instrumento da concepção arquitetônica não é uma novidade da Europa medieval. Temos desenhos arquitetônicos remanescentes do Egito antigo, da Grécia clássica e do Império romano. Vitrúvio teria incluído pelo menos dois desenhos no manuscrito original do seu tratado Da arquitetura, e ele escreveu sobre a importância de o arquiteto dominar a projeção ortográfica e em perspectiva. Apesar disso, o desenho era visto sobretudo como um expediente de trabalho. A novidade da Europa medieval é que, principalmente do século XIII em diante, o desenho passa a ser tratado como um instrumento contratual. Isso quer dizer que o desenho de um projeto pode ser um vínculo legal entre o arquiteto e o cliente, ou entre o arquiteto e os pedreiros.Branner, “Villard de Honnecourt, Archimedes, and Chartres; Branner, “Drawings from a Thirteenth-Century Architect’s Shop”.

Figura 16: Projeto para a fachada da catedral de Estrasburgo, c. 1260. Museu da obra da catedral de Estrasburgo

Execução e obras temporárias

Arce, “Umayyad Building Techniques”.

Figura 17: Cimbramento para uma abóbada de berço segundo Viollet-le-Duc, 1856

Figura 18: Cimbramento para a reconstrução das abóbadas da abadia de Sainte-Trinité-de-la-Lucerne. Foto: MM, 2010

Figura 19: Guindaste na carpintaria de uma igreja gótica. Desenho de Jean-Claude Golvin

Processo construtivo, ofícios e a arquitetura gótica

Relação entre a organização do trabalho no canteiro de obras da Europa medieval e a introdução de inovações técnicas.Fitchen, The Construction of Gothic Cathedrals.

Estas não só tornam a estrutura mais econômicas e previsíveis do ponto de vista da distribuição de cargas, mas também permitem organizar as equipes de modo mais eficiente. Consequentemente, o processo de contratação e fiscalização da obra também ganha eficiência e previsibilidade.Toker, “Gothic Architecture by Remote Control.

  • Busca pela estabilidade com abóbadas de aresta
  • Dificuldade de execução dos perfis de aresta → invenção das nervuras
  • Excessivo empuxo das nervuras diagonais rebaixadas → sobrealçado das diagonais e uso de ogivas nos arcos transversais
  • Solução permite construir módulos alongados e mesmo irregulares (estruturas radiantes nos deambulatórios curvos)
  • Domínio (intuitivo?) dos vetores de forças permite o esvaziamento de contrafortes maciços e a introdução dos arcos botantes.

Figura 20: Esquema estrutural de uma catedral gótica. Modelo digital por Myles Zhang no Sketchfab, 2017.

Espacialidade na pintura gótica

Bibliografia

Ackerman, James S. “Villard de Honnecourt’s Drawings of Reims Cathedral: A Study in Architectural Representation”. Artibus Et Historiae 18, nº 35 (1997): 41–49. https://doi.org/10.2307/1483536.
Arce, Ignacio. “Umayyad Building Techniques and the Merging of Roman-Byzantine and Partho-Sassanian Traditions: Continuity and Change”. In Technology in Transition A.D. 300-650, organizado por Luke Lavan, Enrico Zanini, e Alexander Sarantis, 491–537. Leiden: Brill, 2008. https://doi.org/10.1163/ej.9789004165496.i-573.168.
Bork, Robert Odell. The Geometry of Creation: Architectural Drawing and the Dynamics of Gothic Design. Farnham: Ashgate, 2011.
Branner, Robert. “Drawings from a Thirteenth-Century Architect’s Shop: The Reims Palimpsest”. Journal of the Society of Architectural Historians 17, nº 4 (1958): 9–21. https://doi.org/10.2307/987945.
———. “Villard de Honnecourt, Archimedes, and Chartres. Journal of the Society of Architectural Historians 19, nº 3 (1960): 91–96. https://doi.org/10.2307/988023.
Carreira, Eduardo, e Villard de Honnecourt. Estudos de iconografia medieval: o caderno de Villard de Honnecourt, arquiteto do século XIII. Brasília: Editora UnB, 1997.
Fitchen, John. The Construction of Gothic Cathedrals : A Study of Medieval Vault Erection. Chicago: University of Chicago Press, 1981. http://archive.org/details/constructionofgo00fitc.
Liang, Sicheng. A Pictorial History of Chinese Architecture: A Study of the Development of Its Structural System and the Evolution of Its Types = 图像中国建筑史. Organizado por Wilma Fairbank. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1984.
Rudolph, Conrad. “Bernard of Clairvaux’s Apologia as a Description of Cluny, and the Controversy over Monastic Art. Gesta 27, nº 1/2 (1988): 125–32. https://doi.org/10.2307/767000.
———. “Inventing the Exegetical Stained-Glass Window: Suger, Hugh, and a New Elite Art. The Art Bulletin 93, nº 4 (2011): 399–422. https://www.jstor.org/stable/23208267.
Stanley, David J. “The Original Buttressing of Abbot Suger’s Chevet at the Abbey of Saint-Denis. Journal of the Society of Architectural Historians 65, nº 3 (2006): 334–55. https://doi.org/10.2307/25068292.
Toker, Franklin. “Gothic Architecture by Remote Control: An Illustrated Building Contract of 1340”. The Art Bulletin 67, nº 1 (1985): 67–95. https://doi.org/10.2307/3050888.