Ordens clássicas

Formação das ordens

  • Mito da cabana primitiva e registro arqueológico: origem da arquitetura nas construções arquitravadas.
  • Porém, é equivocado pensar no templo grego como resultado direto de um antecedente “primitivo”. Essa interpretação afirma uma fantasia da excepcionalidade e originalidade grega que, como vimos, não tem fundamento arqueológico.
  • Grécia antiga se desenvolve como parte da esfera cultural do Mediterrâneo oriental e Oriente Médio montanhoso (da Itália à Pérsia).

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Figura 1: Processo tipológico reconstituído do templo grego clássico, baseado em Barbara Barletta. a – mégarōn rural da Idade do Bronze, b – mérgarōn palaciano da Idade do Bronze, c – templo do período geométrico, d – templo próstilo do período arcaico, e – templo períptero do período arcaico

Por que ordens clássicas

  • Chamadas de gêneros de edifícios por Vitrúvio na Roma antiga, e de espécies de colunas pelos arquitetos do Renascimento antes de Serlio (primeira metade do século XVI), alguns como Perrault continuam a usar esse nome até o século XVII.
  • Serlio, Vignola e todos nós hoje em dia usamos o termo ordem pois os diferentes gêneros de arquitetura clássica ordenam o edifício como um todo: ou seja, não são enfeites aplicados ao final do projeto, mas parte do processo de configurar a construção no seu sistema estrutural (mas nem sempre), nas suas proporções (sempre) e até os últimos detalhes (sobretudo da fachada e de espaços importantes).

Desdobramento, não projeto

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Figura 2: Desdobramento de uma base ática pelo método das divisões sucessivas, segundo Vitrúvio III.v.ii. a – determinação da altura e projeção totais, b – plinto, c – toro superior, d – tróquilo e toro inferior


Obra grossa e acabamento

  • Mediterrâneo antigo: pedras com talha preliminar são assentadas na sua posição definitiva, e depois o detalhe é esculpido em todas de modo contínuo para disfarçar as juntas: distinção pedreiro vs entalhador.
  • Mediterrâneo medieval: cada pedra é talhada separadamente na sua forma final, às vezes por equipes diferentes, e assentada já na sua forma final: pedreiro é entalhador.

Continuidade

Outras ordens

Padronização e modularidade na China

A arquitetura tradicional da China atingiu desde o século XI uma padronização quase completa dos seus elementos construtivos em madeira. Essa padronização decorre de processos de centralização política e de unificação econômica que duraram milênios, com “renascimentos” periódicos ao longo das dinastias. O resultado é um sistema racionalizado, com detalhes fixos mas que permitem uma grande flexibilidade de combinações. Esse sistema já chegou a ser chamado no Ocidente de “ordem chinesa”, por analogia às ordens da arquitetura clássica.

A padronização da arquitetura chinesa é, portanto, muito mais antiga do que a codificação das ordens clássicas no Renascimento europeu, e até mais completa. Muito tempo depois, no começo do século XX, o sistema Beaux-Arts, inspirado no método de ensino da escola de Belas-Artes de Paris, passou a ser o método hegemônico para o estudo e a pesquisa da arquitetura no Ocidente.

Nessa época, vários jovens chineses estavam se formando em universidades dos Estados Unidos. Entre eles estava o casal formado pela escritora Lin Huiyin e pelo arquiteto Liang Sicheng. fig. 3 O aprendizado Beaux-Arts de Liang forneceu o método realizar o primeiro levantamento sistemático da arquitetura tradicional na China. fig. 4

Figura 3: Lin Huiyin e Liang Sicheng numa viagem pela província chinesa de Shanxi, 1934. Foto: acervo da família Fairbank

Figura 4: Nomenclatura dos componentes principais de uma construção chinesa. Liang Sicheng e Lin Huiyin, 1943, publicado em 1984

Com base nessa formação ocidental e também para explicar a arquitetura chinesa ao público americano, Liang estabeleceu um esquema interpretativo baseado no sistema Beaux-Arts. Uma das principais características desse sistema é que ele ensinava arquitetura como se fosse uma forma de linguagem.Summerson, A linguagem clássica da arquitetura.

Por isso,

Estudar a história da arquitetura chinesa sem conhecimento dessas regras é como estudar a história da literatura de língua inglesa sem antes aprender a gramática do inglês.Liang, A Pictorial History of Chinese Architecture, 27.

Nesse esquema, a linguagem tem uma gramática e um vocabulário; o vocabulário é o conjunto de elementos da arquitetura chinesa, enquanto a gramática é o modo de compor edificações usando esses elementos. A linguagem clássica da arquitetura tem uma gramática normativa que foi descrita, primeiro, nos tratados italianos do Renascimento — Alberti, Serlio, Vinhola, Palladio… — e, depois, nos manuais de teoria do próprio método Beaux-Arts nos séculos XIX e XX — principalmente os autores franceses de Durand a Gromort passando por Guadet e Varon, mas também os americanos Curtis e Harbeson.

Figura 5: Dinastia Song no seu auge. Mapa: Mozzan, 2013, traduzido por Rowan Wind Whistler, 2015

No caso da China, as gramáticas normativas são dois tratados compilados para ajudar os administradores do estado a medir e controlar obras públicas. O primeiro é o Yingzao fashi, que foi compilado por Li Jie entre 1090 e 1103. fig. 6 a Ele representa as práticas da arquitetura erudita durante a dinastia Song, fig. 5 que era considerada pelos próprios chineses como o apogeu e a síntese do desenvolvimento histórico das artes na China. O segundo é o Gongcheng zofa, uma revisão e atualização do tratado anterior levando em conta algumas mudanças estruturais e suntuárias. fig. 6 b Ele fazia parte da última grande recompilação oficial do pensamento político, filosófico e histórico da China, feita na segunda metade do século XVIII. Por isso, ele foi considerado um exemplo do engessamento conservador da tradição chinesa, e da estagnação tecnológica do país — mas essa foi uma interpretação baseada numa certa agenda política republicana.

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Figura 6: Pranchas desenhadas por Liang em 1943 e publicadas em 1984. a – Regras de carpintaria estrutural da dinastia Song segundo o Yingzao fashi, 1103, b – Regras de carpintaria estrutural da dinastia Qing segundo o Gongcheng zofa, 1778

Figura 7: “Ordem” chinesa. Liang Sicheng e Lin Huiyin, 1943, publicado em 1984

Foi assim que Liang e Lin chegaram ao esquema de uma “ordem chinesa”. fig. 7 Essa expressão operava duas mudanças conceituais importantes: uma no olhar chinês para o seu próprio patrimônio arqueológico, e outra no olhar ocidental para a arquitetura chinesa. Do ponto de vista chinês, Liang e Ling pertenceram a uma geração de pesquisadores que realizaram descobertas arqueológicas cruciais. Eles afirmaram a importância de olhar para os exemplares construídos, em contraste com a tradição acadêmica chinesa de se concentrar na interpretação dos textos clássicos produzidos ou coletados na corte. Lin e Liang documentaram muitos sítios que tinham sido esquecidos ou desprezados até então, como o mosteiro budista Fóguāngsǐ, que contém a construção em madeira mais antiga conservada na China. fig. 8

Figura 8: Fóguāngsǐ, monte Wutai, Shanxi, 857. Fotografia da expedição de Liang Sicheng, Lin Hiuyin, John e Wilma Fairbank, 1934

Figura 9: Evolução da “ordem chinesa”. Liang Sicheng e Lin Huiyin, 1943, publicado em 1984

Esse estudo minucioso permitiu ir além da interpretação dos tratados e confrontar as edificações construídas na sua diversidade. Com isso, Liang e Lin estabeleceram um esquema de “evolução” da ordem chinesa. fig. 9 Isso colocava a tradição arquitetônica da China no mesmo patamar de historicidade da arquitetura europeia esquematizada na “árvore” de Fletcher.

Modenatura e dignidade

Até agora, tentamos enfatizar que os sistemas construtivos determinam a forma arquitetônica, desde a sua configuração geral até os detalhes ornamentais. Porém, a arquitetura raramente se limita a uma expressão estrita de uma necessidade técnica — até porque julgar se uma solução construtiva foi ou não reduzida às suas necessidades mínimas é uma tarefa com infinitas variáveis e, no fim das contas, meio arbitrária.

Figura 10: Comunidade San em volta do lar central de uma aldeia. Foto: Kgara Kevin Rack, 2017

Como também vimos desde o início, a expressão simbólica de uma ordem social também é uma das atribuições fundamentais da arquitetura. fig. 10

Assim que certas formas acabam sendo consagradas numa determinada tradição construtiva, essas formas adquirem um significado cultural que vai além da sua utilidade prática. Essas formas passam a sinalizar a identidade cultural e, por extensão, política ou religiosa, da sociedade que as produz. Graças a esse valor simbólico, a forma arquitetônica se torna um estilo que vai ser replicado como reivindicação de uma certa identidade.

Muitos críticos do século XIX até os dias de hoje se arvoraram o direito de julgar se essas identidades culturais eram autênticas ou contrafeitas, para poder decidir se os estilos associados a elas seriam eles próprios autênticos ou contrafeitos. Essa é a raiz do conceito de pastiche, que desde o século XVII tem sido usado para desqualificar qualquer coisa que não seja o estilo “da moda”.

Figura 11: Liang Sicheng, arquiteto, Memorial para o monge Jianzhen (Ganjin), Yangzhou, China, 1963. Foto: Gisling, 2007

Classes de construções

O Yingzao fashi prevê oito classes de construções baseadas na hierarquia social e nas dimensões necessárias para diferentes propósitos. Essa hierarquia se reflete na altura das arquitraves (vigas mestras) que determinam o módulo da edificação como um todo.

Pureza e poluição

Aproximação às arquiteturas do sagrado: capitais móveis na China e no Japão, estruturas de culto temporárias ou periodicamente renovadas.

Escalas

Indicação e composição

Mais cedo, estabelecemos os princípios da composição arquitetônica:

Esses princípios são realizados numa construção por meio da indicação e da composição.Curtis, Architectural Composition.

A indicação é como a aparência de uma edificação mostra o seu propósito, para que ele possa ser facilmente identificado na paisagem urbana e por quem entra nessa edificação. Já a composição consiste em proporcionar o tamanho e a forma de cada volume dentro da edificação, para que cada pessoa dentro dela identifique o seu objetivo e o percurso para chegar até ele, sem depender de placas.

Indicação: a basílica

Um bom exemplo para se entender a importância da indicação é a basílica. Na Itália antiga, mais ou menos do século VI a.C. até o século III d.C., a basílica é um tipo de edifício cívico com várias funções administrativas e econômicas. Mas, a partir do século IV d.C., o tipo da basílica começa a ser usado também para construir os edifícios de culto do cristianismo.

A basílica antiga é uma forma do tipo da taberna fig. 12, que representa o propósito social de suster a comunidade por meio da atividade econômica:Westfall, “Building Types.

ela abriga, por exemplo, mercados, lojas permanentes e oficinas, mas também pode ser usada para escritórios administrativos que fiscalizam o dia-a-dia da sociedade.

Figura 12: Sete tipos edilícios. Baseado em Westfall, 1991

Figura 13: Pórtico de Átalo na ágora de Atenas. Reconstituição do original da metade do século II a.C. segundo projeto de John Travlos e supervisão estrutural de Georgios Biris, 1953–1956. Foto: Pedro P. Palazzo, 2011

Podemos retroceder até os stoa, os pórticos das cidades gregas que assumem da forma mais simples possível esse propósito. O exemplo canônico é o pórtico de Átalo, uma obra do período helenístico. figs. 13-15

Figura 14: Pórtico de Átalo. Planta do térreo: acervo da American School of Classical Studies at Athens, cota 2008.20.0061

Figura 15: Pórtico de Átalo. Corte perspectivado do projeto de John Travlos por W. H. Thompson & Phelps Barnum Architects, 1953. Acervo da American School of Classical Studies at Athens, cota 1997.08.0400

A analogia de propósitos entre os pórticos da Grécia antiga e a basílica romana permite deduzir um tipo intermediário, de basílica só com duas naves. Esse tipo aparece em algumas colônias romanas na Gália e na península Ibérica no século I,Roth-Congès, L’hypothèse d’une basilique à deux nefs à Conimbriga et les transformations du forum.

por exemplo em Conimbriga. fig. 16

Figura 16: Fórum de Conimbriga com basílica de duas naves, Lusitânia romana (atual Portugal), final do século I a.C. Registro arqueológico por Anne Roth Congès, 1987

Figura 17: Basílica de Semprônio, fórum Romano, 169 a.C. Reconstituição digital: Susanne Muth, 2014

Figura 18: Basílica Úlpia no fórum de Trajano, Roma, 105–107 d.C. Desenho: Julien Guadet, 1867

Figura 19: Planta do fórum de Trajano em Roma. 3coma14, 2011

Figura 20: Corte perspectivado da basílica Úlpia

Figura 21: Aula Palatina ou basílica de Constantino, Tréveris (atual Alemanha), 310 d.C. Foto: Berthold Werner, 2008

Figura 22: Reconstituição digital da basílica primitiva de S. Pedro, Roma, c. 330

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Figura 23: Basílica romana clássica e paleocristã, plantas por Banister Fletcher. a – basílica Úlpia, b – basílica de São Pedro

A basílica clássica só faz sentido a partir de um tamanhão relativamente amplo. Já a basílica cristã pode ser reduzida a dimensões muito modestas e, portanto, com uma forma bastante simplificada. Esse vai ser o caso das chamadas “igrejas visigóticas”. Elas têm esse nome porque foram construídas no reino dos visigodos, nos séculos VI e VII, principalmente no noroeste da península Ibérica. fig. 24

Figura 24: Igreja de Santa Comba de Bande (Galiza, Espanha), século VI ou VII. Foto: Pedro P. Palazzo, 2014

Figura 25: Igreja de Santa Comba de Bande, planta

A igreja visigótica de Santa Comba de Bande é um exemplo dessas pequenas basílicas com naves muito estreitas. fig. 25

Figura 26: Igreja de San Salvador, Valdediós (Leão, Espanha), 893. Foto: Ángel M. Felicísimo, 2008

Figura 27: Igreja de San Salvador. Planta: Ch1902, 2008

Figura 28: Igreja da abadia de Sant Miquel de Cuixà, condado de Barcelona (atual sul da França), 956–974. Planta: Jochen Jahnke, 2011

Figura 29: Igreja da abadia de Sant Miquel de Cuixà. Foto: H. Zell, 2019

Característico perfil das igrejas basilicais com naves laterais mais baixas e coberturas em meia-água. fig. 29

Figura 30: Igreja da abadia de Sant Miquel de Cuixà. Foto: GO69, 2014

Catedral de Santiago de Compostela

Igreja gótica

Atenção: o conceito de basílica como tipo edilício não tem qualquer relação com o título de Basílica atribuído na Igreja Católica a certas igrejas que abrigam relíquias importantes.

Composição: a casa

  • Processo tipológico da casa: do cômodo único à organização típica.
  • A habitação contemporânea de mercado também é tipológica.
  • Principais requisitos para a construção de uma morada vernácula tradicional são tempo e espaço; conjuntos de barracos feitos de materiais precários (chapa, tábua) emergem quando grandes contingentes não tem nem tempo para construir, nem espaço para manejar materiais que não custam nada (adobe, pau-a-pique).Celentano e Habert, “Beyond Materials”.

  • Emergência do conceito de doméstico por oposição a público, e consequente afirmação de papéis de gênero na casa.
  • Pandemia forçou retorno ao conceito de uma casa multifuncional.

Figura 31: Villa parcialmente fortificada na época romana tardia, séculos IV–VI

Figura 32: Tipos de base e duplicações na edilícia de base do Mediterrâneo medieval, segundo Caniggia

Figura 33: Casa–salão do norte da Europa: construção em Burford, Inglaterra

Bibliografia

Celentano, Giulia, e Guillaume Habert. “Beyond Materials: The Construction Process in Space, Time and Culture in the Informal Settlement of Mathare, Nairobi. Development Engineering 6 (janeiro de 2021): 100071. https://doi.org/10.1016/j.deveng.2021.100071.
Curtis, Nathaniel Cortlandt. Architectural Composition. Cleveland, Oh.: J. H. Janson, 1923.
Liang, Sicheng. A Pictorial History of Chinese Architecture: A Study of the Development of Its Structural System and the Evolution of Its Types = 图像中国建筑史. Organizado por Wilma Fairbank. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1984.
Roth-Congès, Anne. L’hypothèse d’une basilique à deux nefs à Conimbriga et les transformations du forum. Mélanges de l’école française de Rome 99, nº 2 (1987): 711–51. https://doi.org/10.3406/mefr.1987.1566.
Summerson, John. A linguagem clássica da arquitetura. Traduzido por Sylvia Ficher. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
Westfall, Carroll William. “Building Types. In Architectural Principles in the Age of Historicism, organizado por Carroll William Westfall e Robert Jan van Pelt, 138–67. New Haven: Yale University Press, 1991.